Quinta-feira, 14 de DEZEMBRO de 2017

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opinião

O hippie do aeroporto

Publicada em 22/09/2017 às 10h| Atualizada em 25/09/2017 às 17h03

Década de 70. Com um violão à tiracolo e uma sacola de lona verde estirada no ombro, lá vinha ele. Figura frequentadora da praia de Ipanema no Rio.  Instigante  filosófo, poeta e esotérico. Atraía todos os olhares. Agora, voaria do Rio de Janeiro para São Paulo. Talvez procurando alguma editora para publicar seu livro.

Lá vinha ele. Esteticamente bizarro. Já de jeans puídos numa época em que rasgado não era moda. Poeta urbano.  De versos cotidianos. Frequentava as chamadas “Dunas da Gal”. Um espaço na praia para mentes arejadas. Notório no local, era o  cheiro dos cigarrinhos de canela. Alguns cantores iam lá. Todo o mundo jovem e descolado do Rio ia lá. Curtiam seus “baratos”, bronzeavam-se, retiravam energia do sol e depois voltavam para os seus Ateliês e suas Redações. A maioria era gente da Comunicação.

O hippie geralmente levava seu violão e seu tarô chinês para a praia. Jogava I-Ching para os amigos. Fazia previsões, mapas astrais e benzeduras. De tardezinha, saudava o sol que fechava o dia e começava a cantoria. Eram mantras sagrados, deliciosos ao ouvido e que mantinham o ar carregado de boas energias.

De dia, ele reunia-se com um grupo de estudos Zen-Budistas. E à noite percorria os restaurantes da Zona Sul vendendo seus poemas. Geralmente confeccionados em forma de livros artesanais. Os versos faziam muito sucesso. Até hoje não sei se o hippie era carioca ou paulista. Mas sei que ele tinha uma aura poderosa. Encantava todo mundo. E vivia de vender poesia. Tinha humildade e não almejava nada de grandioso para  a vida. Não prejudicava, nem odiava ninguém. Seu lema era “paz e amor”.

Na sala de espera  do Aeroporto, sentou ao meu lado e leu alguns versos inéditos. Enquanto a locução alertava para a preemente saída do seu vôo para São Paulo. Ele ajeitou violão, versos e bagagem e saiu apressadamente rumo à Aeronave. Distanciou-se em silêncio. De cima da escada, me surpreendeu. Acenou e gritou a plenos pulmões: “O avião é um pássaro triste, faça-o sorrir”! Após alguns minutos segui meu rumo. Porto Alegre me aguardava. E meu pai também.

 

 

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