Sexta-feira, 17 de AGOSTO de 2018

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opinião

Anotações aborrecidas

Publicada em 02/03/2018 às 08h35| Atualizada em 04/03/2018 às 13h56

A cadeira onde estava sentada não era nada confortável. Sua vida também não. Deveria ter sido concebida sem amor. Sofria demais. Dores existenciais. Dores afetivas. No mais, empurrava os dias como um fardo. Queria encontrar alguém para amar. Mas este dia, com esta provável pessoa, nunca chegava.

Acostumou-se com pouco. De migalhas em migalhas ia tentando ser alguém. Às vezes, em meio à vida, ameaçava um sorriso. Mas a boca se comprimia. Ficava fechada, calada. O coração voltava a ficar triste. Sempre só, não acreditava muito nas pessoas.

Via amizades desmoronarem. Famílias brigar por heranças inexpressivas. Gente maltratando animais. Enquanto outros colocavam lixo no mar. Morava num belo lugar, mas o que via e sentia, era desolador. A latinha de cerveja voava na praia com a ventania triste do final do veraneio. Uma lágrima desceu pelo seu rosto,já bronzeado pelo sol de fevereiro.

Ao longe ouviu vozes. Casal brigando, crianças chorando. Por que gritavam? Parece que o motivo da discussão era por causa de dinheiro. O homem, com voz grave, a chamou de burra. E ela, retrucou aos berros: “Vá morar com sua mãe, então”! As crianças neste ponto, choravam ainda mais.

A brisa que vinha do mar era reconfortante. Algo mais gostoso, do que chocolate ao leite com café preto. Teve a sensação de que os problemas do mundo seriam resolvidos. Que as famílias parariam de brigar. Que todos os cães do mundo não sofreriam maus-tratos. E que todos os refugiados do Planeta teriam finalmente uma pátria. Livre da fome, das doenças, da falta de empregos e das desumanidades.

Oito horas da manhã. Passa um café bem forte lembrando do médico cardiologista. “Não beba tanto café. Tudo em excesso faz mal. Seu coração pede leveza”. O médico atendia num convênio do Governo e cobrava muito pouco pela consulta. Tinha 56 anos e ainda estava solteiro. Olhando para ele, numa consulta e, esquecendo sua precária vida ela pensou: “Será que ele é gay ou optou pela solidão”?

Mas o fato é que ninguém em juízo perfeito, opta pela solidão. Até ela procurava um ombro amigo. Seja lá como for, o que se passa com o médico não é de seu interesse. Opções são opções. Cada um faz de sua vida o que quiser. Se não for correto, que assuma as consequências.

Seu café das oito horas era parco. Uma banana, nenhum pão e açúcar branco, que deveria deixar o cardiologista de cabelo em pé. Ele dizia: “Menos café, nada de Coristinas e nunca açúcar branco. Use o mascavo”. Ora bolas ! Nem adoçar a vida ela podia!

Seguiu-se a rotina de mais um dia. Agora risadas vinham da sacada do apartamento ao lado. Pareciam meninas emancipadas contando suas primeiras experiências sexuais. Riam muito. Os namorados deveriam ter pênis coloridos. Elas eram festivas. Que sexo engraçado deveria ser este de que falavam?

Entre suor e cervejas encerraram o assunto. Pegaram seus bronzeadores, cangas e guarda-sóis e dirigiram-se ao mar. Que neste dia estava azul. Apesar da meteorologia anunciar chuva. E o noticiário falar do encerramento do horário de verão.

 

 

 

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