Quarta-feira, 12 de DEZEMBRO de 2018

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opinião

Imagem: Ana Paula Fonseca

O piano

Publicada em 20/07/2018 às 09h07| Atualizada em 20/07/2018 às 09h09

Irmã Gertrudes era membro educacional da Escolinha. Era bonachona e professora de música. As demais freiras se dividiam em outras disciplinas. Desde “Organização Social e Política do Brasil” até a cadeira de “comportamento”. Pois “comportamento” naquela época era item importante do currículo escolar. Quem obtivesse nota dez em comportamento receberia mérito da Escola e seria um exemplo a ser seguido pela sua turma.

Mas o piano da Irmã Gertrudes chamava a atenção. Ficava em uma sala de destaque na entrada da Escola. Suas teclas, brancas e pretas davam um ar cerimonioso ao instrumento. Costumava chegar antes de todos à aula de música para admirá-lo. Não era um piano qualquer. Era vistoso. Depois delicadamente corria os olhos e as mãos em seu teclado com o meu costumeiro “dó ré mi”.

“Dó ré mi””, “Dó ré mi” e não saía disso. O silêncio da sala contrastava com o som que saía do piano. Mas eu insistia no “dó ré mi”. Só pelo prazer que o som proporcionava. Eu navegava naquelas partituras. Como se fosse realmente uma concertista e estivesse tocando num palácio para uma seleta e atenta platéia. Meus dedos não eram longos. Não eram de pianista. Então, continuava no meu “dó ré mi”, até a Irmã Gertrudes chegar dando início à aula.

Nas datas festivas da escola havia concertos para pais e alunos. Toda manifestação artística era apreciada. Destaque para os finais do ano letivo e depois no início das aulas. O piano da Irmã Gertrudes era peça fundamental. Dava um ar sofisticado ao ambiente. Na época, “pianos” faziam parte da aristocracia. E estudar piano era uma dádiva.

Muitos alunos saíam destes encontros musicais estimulados a seguir carreira como concertistas. A professora expunha acordes, partituras e citava os grandes pianistas do mundo: Johann Sebastian Bach, Ludwig von Beethoven, Franz Liszt e Claude Debussy. As crianças amavam estes ensinamentos. Não raro, tentavam imitar os grandes mestres. Como Chopin por exemplo. Eu confesso: “nunca saí do dó ré mi”. Mas o piano da Irmã Gertrudes marcou minha infância. Naquela escolinha tão simples, mas que escondia a sofisticação daquele instrumento mágico.

 

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