Quinta-feira, 14 de DEZEMBRO de 2017

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opinião

A Cecília que nunca foi Santa

Publicada em 15/03/2017 às 14h53| Atualizada em 22/03/2017 às 09h49

Um dos bairros mais tradicionais de Viamão, permanece intocado em sua mítica: muitas pessoas e a maioria dos moradores não sabem que o nome correto do local é Cecília e não Santa Cecília, talvez por analogia à Santa Isabel. Mas é raro encontrar um “ceciliense” que saiba de onde vem o nome deste importante pólo político e econômico que se destaca a cada dia.

O nome é uma homenagem à Cecília Scliar, esposa de Henrique Scliar, que por volta da metade do século passado resolveu lotear seu imóvel rural, dando início à expansão urbana da região. 

Judeu russo, Henrique Scliar fugira para o Brasil diante das perseguições aos judeus na Revolução Bolchevique de 1917. Radicado em Porto Alegre, mantinha amizade com intelectuais e políticos de esquerda e usava a chácara para reunir e receber amigos.

Deste modo, a propriedade adquirida com um prêmio da loteria, acabou servindo de abrigo para as “férias” de Jorge Amado e Zélia Gattai, quando o escritor era deputado federal pelo PC do B, na segunda metade da década de 1940, fato registrado pela esposa do escritor em seu livro “Um chapéu para viagem”.

Naquela época, a chácara do “seu Henrique” era apenas uma casa de campo aonde amigos da família vinham passar o fim de semana. Entre os hóspedes ilustres estavam Érico Veríssimo, Vasco Prado, Dionélio Machado, Lila Ripol, entre outros.

Moacyr Scliar, um dos mais renomados escritores brasileiros, apesar da pouca idade que tinha, lembra com carinho de suas viagens à chácara do Tio Henrique: “Pouca gente sabe, mas existe, em Viamão, um lugar muito ligado à história da cultura no RS. Trata-se da Vila Cecília. Nos anos quarenta, esta região era uma chácara, de propriedade do sr. Henrique Scliar.

Na chácara funcionava também um ateliê do Carlos Scliar, grande artista já falecido, filho do tio Henrique. Quando Carlos mudou-se para o Rio de Janeiro resolveu desmontar o ateliê. Fui ajudá-lo e lembro da quantidade de quadros e desenhos que ele rasgou, por considerá-los” superados “(hoje figurariam em qualquer museu). Com o tempo, entretanto, não foi mais possível manter a propriedade, e o tio Henrique teve de loteá-la. Mas a lembrança permanece.”

Trecho do livro Um chapéu para viagem, de Zélia Gattai, 1982:

“A chácara do seu Henrique não tinha fruta de espécie alguma, mas era encantadora. A casa rústica, construída numa pequena elevação, dava sobre um bosque; ao lado, antes de entrar na mata cerrada, havia uma piscina natural, toda de pedras, transbordante de água cristalina provinda de uma nascente...

Era começo de semana e passamos, os dois sozinhos, dias inesquecíveis, deitados em redes sob os arvoredos, banhando-nos na piscina, fugindo ao sufocante calor do tórrido verão gaúcho.Uma empregada nos servia, e, ao meio-dia em ponto, chegava um carro trazendo-nos almoço e jantar e os jornais. Tão próximos da cidade e, no entanto, estávamos em plena selva, longe da civilização...”

 

 

 

 

 

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