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3º Neurônio | cinema

Marie Falconetti, a Joanna Darc do cinema que morou no Brasil fugindo do nazismo

Publicada em 25/07/2017 às 09h46| Atualizada em 25/07/2017 às 11h43

Muitas foram as atrizes que intrerpretaram Joanna D'Arc nos cinemas, Jean Seberg, Ingrid Bergman (duas vezes), Milla Jovovich, Geraldine Farrar, Jeanne D'Alcy (a primeira interprete da Donzela de Orleans nas telas) entre outras, mas a atuação de Marie Falconetti, no filme O Martírio de Joanna D'Arc(La Passion de Jeanne d'Arc, 1928), de Carl Theodor Dreyer, é considerada uma das melhores.

Sua atuação vai além de ser uma das melhores interpretes da Santa francesa, ela é considerada uma das melhores atuações da história do cinema. Em 2006 a revista Premieré a classificou no 26º sexto lugar das cem melhores atuações cinematográficas.

 

 

Renée Jeanne Falconetti nasceu em 21 de julho de 1892, em Pantin, França. Muitas vezes foi creditada como Maria Falconetti (ou Marie), Mlle. Falconetti ou simplesmente Falconetti. Ainda muito jovens, seus pais se separaram e enviaram a menina para um colégio interno, onde ela fez suas primeiras peças escolares, a contragosto dos pais.

Ao terminar o colégio começou a trabalhar em uma empresa que a enviou para Hamburgo e depois Liverpool. Na Inglaterra ela conheceu um milionário judeu chamado Henri Goldstück, com quem teve um longo relacionamento (embora ela nunca tenha se casado). Foi ele quem lhe pagou suas primeiras aulas de interpretação, com Maurice de Feraudy.

 

 

Em 1912 ela ingressou no Conservatório de Arte Dramático de Paris, onde teve aulas com o ator Eugene Silvain, que mais tarde seria seu algoz no filme de Dreyer. Em 1915 Falconetti estreou profissionalmente como atriz no Theatre de L'Odéon, onde permaneceu contratada por três anos. Em 1917 fez seu primeiro filme, O Palhaço (Le Clow, 1917), dirigido por seu antigo mentor  Maurice de Feraudy. No mesmo ano atuou também no filme La Comtesse de Somerive (1917), fazendo papéis coadjuvantes em ambos.

Embora tenha ficado famosa por seu papel dramático no cinema, ela desenvolveu uma carreira teatral como atriz cômica, atuando inclusive em operetas e revistas, e também como modelo para casas de modas parisienses, embora também se destacasse em papéis sérios, como em A Dama das Camélias.

 

Em 1925

 

Em A Dama das Camélias

 

Em 1925 ela ingressou em uma companhia chamada Teatro dos Jovens Atores, onde contracenou inúmeras vezes com um jovem ator francês chamado Charles Boyer (com quem também teve um breve romance). Depois ingressou na famosa cia Comédie Française.

 

Com Charles Boyer

 

 

Foi na Comédie Française que foi descoberta por Dreyer, que lhe ofereceu o papel principal em O Martírio de Joanna Darc. Ela deixou a companhia para filmar, e foi ai que começaram os problemas. O filme levou um ano e meio para começar a ser rodado, deixando a moça em uma situação financeira complicada.

Em entrevista a revista brasileira Cinearte, em 1942, Falconetti afirmou que nunca sofrerá tanto como nos cinco meses e meio de filmagens. O diretor era exigente, e a obrigava a rodar inúmeras vezes a mesma cena em busca do realismo desejado. Em uma dessas cenas, ela tinha que cair no chão, e nenhuma tomada agradava o diretor. Por fim Falconetti se jogou no chão e quebrou uma perna, e finalmente sua dor e sofrimento agradaram Dreyer. Seus cabelos também foram cortados com violência durante o filme, fazendo a atriz chorar lágrimas reais.

 

 

Ela continuou filmando com a perna quebrada, o que aumentava seu sofrimento diante das câmeras e forçou o diretor a filmar a obra quase toda em plano fechado, o que foi considerado como "genialidade". A atriz sofreu torturas reais. Para a cena em que morre queimada na fogueira, ficou ajoelhada sobre pedras pontudas, enquanto seu martírio real era filmado com fortes luzes que queimavam seu rosto. 

E durante todas as filmagens, ela foi proibida de falar com qualquer pessoa, ficando isolada por tapumes nos intervalos, o que quase a levou a loucura.

 

 

O filme foi um grande fracasso na época, mas passou a ser cultuado ao longo dos anos. Falconetti ficou tão traumatizada com a experiência, que nunca mais quis trabalhar no cinema, embora tenha recebido muitos convites, inclusive de Hollywood. O próprio Dryer a convidou para filmar A Dama das Camélias, que ela prontamente recusou.

Falconetti retornou ao teatro, onde seguiu com uma bem sucedida carreira e montou seu próprio teatro, o L'Avenue, que ficava na famosa avenida Champs-Élysées  em Paris. Mas veio a Segunda Guerra Mundial, os nazistas invadiram Paris e tomaram seu teatro.

A atriz fugiu para a Suíça, para proteger seu filho, que na época tinha dez anos, e era filho de Henri Goldstück, que era judeu. Lá, cantou para as tropas francesas e em hospitais para os feridos de guerra. Com medo do avanço nazista, mudou-se para o Brasil, para criar seu filho em segurança. Sua filha mais velha ficou aos cuidados da avó.

A ideia de vir ao Brasil partiu do amigo brasileiro Alberto Cavalcanti. Ela o conhecerá quando filmava com Dreyer nos estúdios Billancourt. Cavalcanti, um cineasta brasileiro que começou a carreira na França, e filmava seu primeiro longa, Yvette (1930). Ele a protegeu de Dreyer algumas vezes durante as filmagens de Joanna D'Arc. Em recompensa, Falconetti o contratou como diretor teatral para sua companhia, que só apresentava textos inéditos. Esta foi a única experiência teatral de Cavalcanti.

 

Cavalcanti e Falconetti em 1931

 

A atriz e o filho chegaram ao Brasil em fevereiro de 1942. Ela pretendia trabalhar no teatro brasileiro para sobreviver, mas não conseguiu trabalho por aqui. Após atuar em recitais beneficentes em homenagem aos soldados brasileiros na guerra, mudou-se para Petrópolis. Suas economias se esvaziaram e ela passou a dar aulas de francês e canto para sobreviver. Mas problemas com o visto a impediram de continuar trabalhando. Sem alternativa, mudou-se para Buenos Aires, onde também passou a lecionar.

 

Falconetti no Rio de Janeiro, em 1942

 

Quando a guerra acabou, tentou retornar à França para retomar sua carreira teatral. Acima do peso, se impôs uma severa dieta para recuperar a forma, porém isto abalou sua saúde levando a atriz a óbito em 16 de dezembro de 1946, ainda em Buenos Aires.

 

Em Buenos Aires, em 1945

 

Ela foi cremada e suas cinzas enviadas a Paris, onde foi enterrada no cemitério de Montmatre. Seu neto Gérard Falconetti também foi ator de cinema, e faleceu precocemente em 1984, com trinta e cinco anos de idade.

 

Gérard Falconetti

 

Assista Falconetti em O Martírio de Joanna D'Arc

 

 

 

Diego Nunes é gaúcho, formado em Rádio e TV pela Universidade Metodista de São Paulo, é pesquisador da memória cultural e artística, e sua paixão é o cinema. Além disso, atua como diretor cultural da Pró-TV, Museu da TV Brasileira, e no departamento de arquivo da Rede Record de Televisão.

Acompanhe-o pelo Memória Cinematográfica.

 

 

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