Sabado, 16 de DEZEMBRO de 2017

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3° Neurônio | crônica

Procurando Fraga: por livros, personagens e vielas de uma feira do livro

Publicada em 19/11/2017 às 23h20| Atualizada em 22/11/2017 às 15h58

Reproduzo um texto que fiz há duas edições da Feira do Livro de Porto Alegre, quando fui até lá com a missão de encontrar a Loja da Feira e achar o Fraga, nosso colunista e do mundo. Humorista que é, ele era uma das cabeças da única estande aonde... não havia livros, e sim souvenirs! Mas os livros estavam, por todo caminho, fazendo da procura um encontro, em 24 'capítulos'. Teleportemo-nos, então!

 

I

Debrucei-me sobre a Feira para avistar o cujo, mas a aventura que vou contar quase me transforma na estátua de Mirian Obino, desde 1937 no meio da Praça da Alfândega.

Chama A Fuga.

Encontrei com muita ‘gente’ no caminho até achar – se é que achei – Fraga.

 

Para Piter partiu Vanka,

Por ele não esperarei

 

A meu lado distrai – e vira assunto de duas adversárias – a beleza russa de Grúchenhka (Os Irmão Karamazóvi, de Fiódor Dostoiévski), toda em preto, avançando em andar silencioso, requebrando-se levemente, como fazem por vezes as mulheres corpulentas. Estava irritada e sentia pesar sobre ela os olhares desprezadores e ávidos de escândalos. Era uma dessas naturezas altivas, incapazes de suportar o desprezo, o que as inflama de cólera e impele à resistência.

– Sou a causa desse drama – ela diz, no iPhone 6, talvez a Mítia, Aliócha, ou mesmo para a rival Catarina Ivânovna.

– M Satanas sum ET nihil humani a me alienum, puto.

Ivã me toca o ombro, mas não era nenhum xingamento.

– Sou Satanás e nada do que é humano reputo alheio a mim – diz, transtornado.

Fraga segue alheio a mim.

 

II

Vou-me como Lucien – de Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac, que não li até o fim com medo de perder as minhas ilusões – sob as árvores de Beaulieu, contemplando a distância que separava Angoulême de L´Houmeau.

Os costumes da terra erguem barreiras morais bem mais difíceis de transpor que esse piso de pedras pretas e brancas, gasto e escorregadio para sapatos velhos.

Sigo procurando o Fraga como se fosse ele uma balzaquiana senhora de Bargeton e a Loja da Feira, seu palácio.

– Nesse mundo quem é o boi, quem é a águia – reflito, como fazia David.

Avanço por dentro da praça, no lado B da Feira, nas vielas que se cruzam atrás das barracas, às margens da piscina de água podre que – ainda bem – nem o cavalo montado pelo General Osório se arrisca a chegar perto.

Ali estão as putas deslocadas da feira.

– Quem é aquela? – me pergunta o assalariado Corax (Satiricon, de Petronio).

– É a mulher de Trimalchão, Fortunata, nome que lhe assenta bem, pois que mede o seu dinheiro em alqueires.

– E antes de casar-se, o que ela era?

– Com tua licença, digo-te que não teria aceitado de suas mãos nem mesmo um pedaço de pão. Pois sem que se saiba como nem porque, tornou-se a senhora absoluta de Trimalchão, e este não vê as cousas senão através dos olhos dela; a ponto de, se em pleno meio-dia afirmasse ser noite, ele acreditaria nas suas palavras.

Corax maldiz seu emprego, põe no chão mais uma vez sua carga. Levanta a coxa, produzindo ruídos obscenos e cheirosos que enchem a praça.

Gitão ri da insolência, e imita com a boca cada uma das ventosidades que o amigo nos lançava.

Um pensamento estranho me vem, enquanto sigo procurando Fraga:

– Oh, o que somos nós?! Bexigas cheias que caminham; menos do que moscas, porque estas ao menos possuem certa resistência: não somos mais que bolas de sabão.

 

III

Próximo de onde três meninas bonitas e maquiadas para festa preenchem suas pranchetas com dados de uma pesquisa de opinião, Brizola fala e Paulo Francis (Paulo Francis – Trinta Anos Esta Noite, O Que Vi e Vivi) ouve.

O caudilho pergunta o que o jornalista acha de Hitler. Sem o anti-semitismo. Uma pergunta de nacionalista, supôe Francis, que da distância dos óculos fundo de garrafa, e com hálito de, diz que, mesmo sem o anti-semitismo, acha Hitler cômico e sinistro.

Mudam de assunto.

Sigo eu, atrás do bunker do Fraga.

 

IV

Como não tenho muito senso de direção, acabo na Banca da Alfândega, onde passo os olhos por jornais. A Nação traz na capa foto de Assis e uma manchete de oito colunas que parece gritar: “Os irmãos Chateaubriand mandam matar, em São Paulo, o sr. Oscar Flues”.

Em minutos já estou do outro lado da Praça e vejo, no Bistrô do Margs, Chateaubriand (Chatô – O Rei do Brasil, de Fernando Morais) escreve um curto artigo, para todos os diários associados, intitulado “Far-west de quintal” – um debochado exercício de caradurismo.

– “Escroque internacional”, “ladrão”, “patife”, “assaltante”, “gatuno de gavata” – são adjetivos que o jornalista, num estilo revista Veja retrô, usa ao se referir à vítima.

– E ele esteja certo de que aqui no Rio, onde espero defrontá-lo, o nosso caso pessoal não se decidirá num ridículo far-west de quintal, com escaramuças inócuas, pelos traseiros. Será coisa da mais pura e romântica tonalidade sertaneja e nordestina. Já lhe dei a generosa porta de saída para o seu crime. Ele recusou-a, não devolvendo o produto do assalto. Sua alma, sua palma – conclui.

Medo. Melhor achar logo o Fraga.

 

V

Na andança, vejo Marx – o que não é dos irmãos – em quase tudo, mas meço o peso do O Capital do Século XXI, do Thomas Piketty – o economista francês aquele, que ao participar do Roda Viva, se assustou com nossos Lara Resende e “liberais” da paulicéia que assumiram o papel de entrevistados no programa.

Esse neo “Capital” é muito grosso. Por que se perder na política e sua canalha – redundância conforme o Millôr e a torcida do Flamengo – se há tantos mundos onde procurar o Fraga?

– Meus bons amigos, não permitam que eu os incite a uma amotinação impensada. Aqueles que perpetraram este ato são homens honrados – discursa a estátua viva, na frente do Subway, onde já estou de volta, como um Lucky Starr (Os Anéis de Saturno, de Isaac Asimov).

– Eu não tenho a inteligência, nem as palavras, não tenho autoridade, postura, dicção, nem a força do discurso para despertar o sangue dos homens – segue, até ser interrompida por um plebeu, que ouvia a Rádio Gre-Nal:

– Vamos queimar a casa de Brútus (Júlio César, de Shakespeare)!

– Vamos, procurem os conspiradores – ouço a multidão.

Corro. Seria eu, por andar com uma mochila nas costas, um dos comunas?

Onde andas, camarada Fraga?

 

VI

Uma animada contação de histórias faz as criança rirem. Sinto vontade de me aproximar e sussurrar O Horla (Contos Fantásticos, de Guy de Maupassant).

Desde que olhei a área juvenil não consigo parar de lembrar títulos da Coleção Vagalume.

– Um Cadáver Ouve RádioXisto no EspaçoA Ilha PerdidaCem Noites Tapuias...

Nas coletâneas do Para Gostar de Ler escreviam suas crônicas ‘apenas’ Carlos Drummond de AndradeFernando SabinoRubem Braga...

Um pouco separada das demais crianças observo Alice proclamando ao mundo do Espelho (Alice – Aventuras de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll).

 

Coroa na cabeça e cetro na mão, agora convido

Todas as criaturas que o Espelho jamais espelhou

A cear com a Rainha Vermelha, a Branca e comigo!

 

Penso comigo:

– Em que toca de coelho terá Fraga se metido?

 

VII

Caminho perdido como o Pequeno Príncipe, preferido das misses e meu.

– Sejam meus amigos, eu estou só...

– Estou só... estou só... estou só... – responde o eco.

– Onde está o Fraga, Exupéry (O Pequeno Príncipe, de Antoine Saint-Exupéry)?

– Onde está o Fraga... Fraga... Fraga...

 

VIII

E chega mais um ônibus com estudantes. Como uma Natasha (Guerra e Paz, de Liev Tolstói), num baile diferente do que dançou com o príncipe Andrei, a menina faz passos de funk e o professor diz:

– Na aula vocês não fazem isso, por que fazer aqui?

E eu? Minha felicidade está em suspenso (Henry & June, de Anaïs Nin). Não acho o Fraga.

 

IX

As paisagens dos livros que eu lia, se tinham a diferença de estar mais vivamente representadas na minha imaginação do que as paisagens que Combray oferecia a meus olhos, nem por isso deixavam de lhes ser iguais (Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust).

Sou eu em busca, já quase meio-dia.

 

X

Bato uma foto do lambe-lambe, que aguarda parceiros para a conversa de Mário Quintana com Carlos Drummond de Andrade, sob os olhos dos batedores de carteira.

Guardo rápido o celular. Aqui é Canto XXIV (A Divina Comédia, de Dante Alighieri), arlequina!

– Os dois poetas logram alcançar a sétima vala do Oitavo Círculo. Lá deparam os ladrões, que correm em meio a serpentes gigantescas; quando picados por elas, reduzem-se a cinzas, para logo em seguida renascerem.

O Fraga? Nem as cinzas, ainda...

 

XI

Passando pela Casa do Pensamento, ouço o palestrante falar aos adolescentes:

– Vocês tem que falar inglês. Ou vão ficar para trás.

Dois gurizinhos, mais humildes, que olhavam de fora, com vergonha de entrar, me lembraram Karl Rossmann (O Desaparecido ou Amerika, de Franz Kafka), contente com o fato de que o elevador em que ele devia servir fosse destinado apenas aos andares superiores, porque assim ele não teria que entrar em contato com as pessoas mais ricas.

Pensariam esses dois piazinhos como o um pouco mais velho que eles Dominic Molise (1933 Foi Um Ano Ruim, de John Fante), que em despedida chora pelo pai, por todos os pais, e filhos também, por estarem vivos naquela época?

– Agora eu tinha que ir para a Califórnia, eu tinha que me dar bem.

Oscar passa e grita, venenoso como sempre:

– Ter sido bem educado é uma grande coisa em nossos dias. Fecha muitas portas. (Aforismos ou Mensagens Eternas, de Oscar Wilde).

Eu sigo atrás do Fraga (O Desaparecido na Praça da Alfândega, de Rafael Martinelli).

 

XII

Saio de canto para fumar um cigarro Souza Cruz, que não testa em animais, e um careca me encara. O imbecil tem uma suástica no pescoço.

– Moscas invadem a cidade de Argos (As Moscas, de Jean-Paul Sartre) – penso, enquanto balanço a cabeça.

Cigarro não presta mesmo. Só prestou para Bergman, e por isso existe Woody Allen. O irmão tentou o suicídio, a irmã foi obrigada, por razões familiares, a fazer um aborto, e ele fugiu de casa porque o pai pastor não o aceitava fumante (Lanterna Mágica, de Ingmar Bergman).

Apago numa bituqueira. Do Fraga, nem sinais de fumaça. 

 

XIII

Num banco, uma pequena mulher usa uma burca preta. Não bato foto. Não sou paparazzi. Seria síria? Saberia ela que os libertadores norte-americanos, justamente na campanha antiterrorista, têm culpa na criação desse grupo? (Estado Islâmico: Desvendando o Exército do Terror, de Michael Weiss).

A freira passa comendo um pastel e penso no papa e sua cruzada pela caridade e contra os corruptos do Vaticano.

– Não deixemos que nos roubem a esperança (Evangelii Gaudium, do Papa Francisco)!

Como Ciappelletto (Decameron, de Boccaccio), sigo pagando meus pecados atrás do Fraga.

– Se todos os pecados já cometidos pela totalidade dos homens (ou a serem ainda cometidos por todos os homens enquanto o mundo durar) se concentrassem num único homem, e ele se arrependesse como você, é tanta a bondade e a misericórdia de Deus que, ao se confessar, ele seria de pronto perdoado – garante o frade.

O diabo Keith fala de graça com John num orelhão da Oi:

– Ainda não terminamos de mixar – diz Lennon.

– Aqui a gente tem uma pronta – diz Keith.

– Ok, a de vocês sai antes.

Tudo orquestrado, para não trombar os singles, que saíam a cada seis, oito semanas (Vida, de Keith Richards).

O Fraga? Oi?

 

XIV

Um casal de pedreiros dorme num banco:

– Formam um casal muito unido, e, se um morrer por abuso de drogas, o outro pode se suicidar. Acreditam que são usuários recreativos, mas são visivelmente viciados – diz o padrasto do marido de Amy (Amy Winehouse – Biografia, de Chas Newkwy-Burden).

Me arrepio ao lembrar de Courtney vestida com várias camadas de roupas de Kurt –ainda com o cheiro do marido. Wendy chega, e mãe e nora dormem na mesma cama, agarrando-se uma à outra durante a noite. O corpo de Wendy lembra o do filho suicida (Mais Pesado Que o Céu – Uma Biografia de Kurt Cobain, de Charles Cross).

O crackeiro levanta a cabeça e sorri. Vejo Chet Baker, a língua catando dentes:

– E lá estava eu engaiolado no Forte Huachuca. Fiquei alguns dias no meio daqueles pobres-coitados, andando de um lado para outro e catando besteiras no chão, aqui e ali. De noite, alguém sempre conseguia encharcar uma toalha no tanque de um caminhão de gasolina, a fim de que mais tarde quem quisesse desse uma cheirada para ficar doidão (Memórias Perdidas, de Chet Baker).

É como Bukowski, que quando vomita, deixa tudo em ordem e nunca se soube que mijasse no chão (A Mulher Mais Linda da Cidade, de Charles Bukowski).

Mas, e o Fraga? Só pode estar no Forte Huachuca...

 

XV

Volto à luz e vejo Clapton trôpego caminhando pela Rua da Praia, tentando se convencer de que estava tudo bem, que Lori estava louca. Não estava.

– A sala de estar tinha janelas que iam do chão ao teto e podiam ser abertas para limpeza. O faxineiro deixou-as abertas. O condomínio não permitia grades. Conor brincava de esconde-esconde com a babá e simplesmente correu janela afora. Ele caiu 49 andares antes de se chocar contra o telhado de um prédio de quatro andares ao lado (Eric Clapton, de Eric Clapton).

“Vou contratar alguém para enterrar você, seu judeu filho da puta”, é o grito que me distrai da tristeza.

Olho e vejo Cohen, com olhos de caminhoneiros tipo Bowie (David Bowie– de Marc Spitz) ou Dylan (Bob Dylan, de Howard Sounes), acertando um murro de direita em Sinatra, abrindo-lhe o lábio superior e arrancando as jaquetas de dois dentes da frente.

Sigo a busca, louco para receber um sorriso de jaquetas do Fraga, enquanto lembro o fiasco que Frank já tinha feito quando o bilionário Howard Hughes tinha cortejado Ava Gardner com presentes extravagantes (Sinatra – His Way, de Kitty Kelley).

Farei eu uma reportagem sem falar com o Fraga, um Frank Sinatra Está Gripado? (Fama & Anonimato, de Gay Talese).

Faço tudo nessa vida, menos entrevista por e-mail.

 

XVI

Ouço um som de violão que lembra Johnny Cash (Cash, de Patrick Carr), entre hinos religiosos, destilado das drogas, cantando que anda pela estrada da liberdade, como um cigano numa jaula de ouro, e “os dias parecem correr juntos / e me vejo querendo beber de novo / a água dos poços lá de casa”.

Por onde andará esse cigano do Fraga? Voltou para o Rio, para a Bahia, para a Bom Jesus? Adiantaria escrever uma carta?

– Escrevo-lhe porque não tenho ninguém a quem recorrer e parece-me que se esta farsa é clara a uma pessoa doente como eu, deveria ser clara a você (Suave é a Noite, de F. Scott Fitzgerald).

 

XVII

A voz dos auto-falantes anuncia:

– Às 15h, rádio teatro, com artistas da era de ouro do rádio, da Casa do Artista Riograndense, na peça “Personagens Sem Vida”.

Vejo a pobre, negra, nordestina, de rádio, cassinos e cabarés Salomé Parísio, o Rouxinol do Norte, biografada por Diego NunesThais Matarazzo e Fábio Siqueira.

Morreu pobre, como morrem a maioria dos artistas da era pré-celebridades.

A voz macia do auto-falante repete o texto e diz que a direção é de Roberto Gomes.

Volto à procura pelo Fraga.

 

XIX

Penso em apelar para o Esoterismo para achar o Fraga. Não faltam opções nas bancas da Feira. Paulo Coelho está até na apresentação de livro de Menudo (Eu, de Ricky Martin).

– Sou tudo o que foi, tudo o que é, tudo o que será. Nenhum mortal jamais me alçou o véu. O fruto que gerei converteu-se no Sol (Helena Blavatsky, em Ísis Sem Véu).

Fraga Sem Véu, que tal?

 

XX

Uma senhora passeia com o cãozinho. Ouço um miado. Era Fletch (O Gato Por Dentro, de William Burroughs). Lugar de gato não é na rua (Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector). Lugar de Fraga, é na Feira, defino.

Olha, pede para a mãe esperar para morrer que eu chego lá (Enquanto Agonizo, de William Faulkner).

 

XXI

É meio-dia. Ao passar pela banca do Tribunal de Justiça não há como não sentir fome (ou enjoar?!?), ao lembrar dos R$ 38 mil que cada magistrado gaúcho vai receber retroativo a 2011 - R$ 36 milhões “na conta da viúva”, como diz o Elio Gaspari, do essencial As Ilusões Armadas.

A Praça de Alimentação está mais ampla este ano, dizem. Mas o que comer um vegano defensor do abolicionismo animal?

Uma obra de Sônia T. Felipe cairia bem.

Está abafado. A maior fila é das paletas, o picolé dos descolados.

Fraga deve estar almoçando. Ele gosta de comida.

 

XXII

Hora de fazer tempo com poesia. Que tal aquela na voz do Renato Russo?

 

Amor é fogo que arde sem se ver

É ferida que dói e não se sente

É um contentamento descontente

É dor que desatina sem doer

(200 Sonetos, de Luis Vaz de Camões).

 

Por vezes evoquei esta lua encantada,

Esse silêncio e essa calma,

Como esta confissão horrível, sussurrada

Ao confessionário da alma

(As Flores do Mal, de Charles Baudelaire)

 

A Via-Sacra Azul do amor primeiro

Veste hoje o luto que a desgraça veste

No misere do meu desespero...

– Lótus diluído n´alma dum cipreste!

(Eu e Outras Poesias, de Augusto dos Anjos)

 

Minha loucura, outros que me a tomem

Com o que nela ia.

Sem a loucura que é o homem

Mais que besta sadia,

Cadáver adiado que procria?

(Poesias, de Fernando Pessoa)

 

Tudo cai! Tudo tomba! Derrocada

Pavorosa! Não sei onde era dantes.

Meu solar, meus palácios, meus mirantes!

Não sei de nada, Deus, não sei de nada!...

(Sonetos, de Florbela Espanca)

 

E não sei onde está o Fraga, esse Rimbaud na Abissínia (Rimbaud na Abissínia, de Alain Borer).

 

XXIII

Olhando o tradicional jogo de damas da Praça da Alfândega penso em Capote, dizendo que quem escreve e assume riscos genuínos, que se dispõe a caminhar na prancha, tem em comum outro grupo de solitários – os que ganham a vida em mesa de bilhar ou carteado (Ensaios, de Trumam Capote).

Mas basta, meu pensamento: em ambos os lados à minha volta, ainda se erguem as casas de Petersburgo... E não há nada melhor do que a Avenida Niévski, pelo menos em Petersburgo (Avenida Niévski, de Nikolai Gógol).

E tenho que achar o Fraga.

 

XXIV

Eis que tenho a exótica ideia de procurar o setor de informações.

– Não acho a Loja da Feira, não acho o Fraga.

– É que só abre depois do meio-dia – ouço.

E não é que lá está ele, abrindo a bodega? Hora de dar um flagra no Fraga.

– O otimista não sabe o que o espera! (A Bíblia do Caos, de Millôr).

 

 

 

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