Domingo, 21 de JANEIRO de 2018

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3º Neurônio | crônica

A maldade dos motoristas nos dias de chuva

Publicada em 03/01/2018 às 09h46| Atualizada em 05/01/2018 às 14h24

Palco escuro. Relâmpagos, trovões. Chove desatinadamente. Das sombras do fundo, vem um vampiro de guarda-chuva. Na boca do palco, para e monologa, triste e monótono.

Vampiro – Vocês notaram a maldade dos motoristas nos dias de chuva? São capazes de entrar na contramão pra passar nas poças e nos molhar. Alguns nem olham depois, outros olham e praguejam se nos molharam pouco ou riem se molharam bastante. Os piores fazem aquele gesto acompanhado do indefectível: iééé! Acho que alguns anotam num caderninho a proeza, com a hora, a esquina e outros detalhes, quem sabe pra recordar nas longas noites de inverno.

De onde vem a maldade dos motoristas nos dias de chuva? Sim, claro, eles não são santinhos nos dias de sol. Muito escolar é atropelado no sinal fechado como cachorros que cruzaram a rua na hora errada. Quase todas as horas são erradas para os motoristas e as multas são perseguições claras, mas nos dias de chuva eles não agem apenas como os donos das ruas, eles se divertem.

Pensei que fosse o carro. Porque um homem num carro, mesmo que seja um Fusca do tempo da guerra, se acha superior a você, pedestre ignaro. Mas, como disse, nos dias de chuva eles precisam esfregar em nosso nariz essa superioridade. Não sei por que o fato de estarem secos faz tanta diferença.

Quem nos salvará da maldade dos motoristas nos dias de chuva? O capitalismo incentiva a maldade dos motoristas nos dias de chuva oferecendo melhores carros e melhores chuvas. O socialismo propõe acabar com os carros, fora para a elite burocrática, e manter as chuvas apenas nas regiões agrícolas. O que vocês acham?

Cristo e Buda não nos salvaram da maldade dos motoristas nos dias de chuva. Achavam melhor a gente se secar quietinho.

Longa pausa.

Parece que nem um cursinho de boas maneiras nos salvará da maldade dos motoristas nos dias de chuva.

Muito lentamente, o vampiro se vira e some na chuva. Cai o pano também muito lentamente.

 

Ernani Ssó é escritor e vive em Porto Alegre. 

 

 

 

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