Domingo, 18 de NOVEMBRO de 2018

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Opinião

A viagem de Clark Gable ao Brasil

Publicada em 07/02/2018 às 15h55| Atualizada em 09/02/2018 às 14h50

Conheça mais sobre a vinda de um dos maiores astros de Hollywood ao Brasil, na pesquisa e reportagem, em texto e vídeo de Diego Nunes, do Memória Cinematográfica para o DV.

 

Em abril de 1934, o astro mexicano Ramon Novarro passou uma temporada no Brasil, causando um enorme rebuliço entre os fãs de cinema. Novarro tornou-se um dos primeiros astros cinematográficos visitar o País e abriu as portas para outras visitas, de pessoas como Walt Disney, Orson Welles, Tyrone Power e Errol Flyn, entre tantos outros que receberíamos nos anos seguintes.

Normalmente, esses artistas restringiam sua passagem ao Rio de Janeiro, então capital federal, e bem da verdade suas visitas eram um ponto de parada durante suas viagens para visitar Buenos Aires.

E foi retornando de uma viagem de férias à Buenos Aires que o centro de São Paulo recebeu a visita de Clark Gable, o maior galã do cinema da época, em 22 de outubro de 1935. Gable ainda não havia personificado Rett Buttler, o protagonista de E o Vento Levou (Gone With the Wind), que só seria filmado em 1939, mas acabará de receber o Oscar de melhor ator em fevereiro do mesmo ano, por sua atuação em Aconteceu Naquela Noite (It Happened One Night, 1934).

 

Assista a um trecho de Aconteceu Naquela Noite

 

O ator contratado da Metro Goldwyn Mayer (MGM) era o artista mais popular de Hollywood da época, e viajará de férias para à Argentina. Após alguns dias na capital portenha, o astro retornava para casa a bordo do navio Pan-American, que fez uma parada em Santos. O ator pretendia passar incógnito e sua passagem pelo Brasil era realmente desconhecida, até o dia anterior a sua chegada, quando um jornalista do Correio de São Paulo percebeu seu nome na lista de passageiros do navio (era comum na época as colunas sociais noticiarem o retorno de ilustres membros da sociedade local que desembarcariam na cidade após alguma viagem).

 

 

Ainda no navio, foi recebido por uma legião de jornalistas que queriam o entrevistá-lo. Entre eles, a jovem Anésia Pinheiro Machado, que ficaria famosa como a primeira mulher piloto de avião brasileira, na época repórter de uma rádio paulista.

Uma pequena multidão se aglomerou em frente do armazém 31 da Cia. das Docas de Santos querendo ver o galã e seu cabelo perfeitamente alinhado com brilhantina. Gable enfim chegou em Santos às 11 da manhã. Algumas jovens mais exaltadas conseguiram romper a barreira policial e subiram à bordo do navio. Uma roubou-lhe o lenço de seda que carregava no bolso. Os botões do seu paletó também foram todos arrancados, até que a polícia interveio, impedindo que as fãs o deixassem quase nu, como ocorrerá durante sua chegada em Santiago, no Chile.

O ator conseguiu passear pela praia de São Vicente, disfarçado com um grande e falso bigodão, e se encantou com o litoral paulista, mas como iria passar a noite atracado, resolveu visitar a capital paulista.

Para driblar a multidão, que ainda o aguardava no cais do Porto, Gable acabou comprando um carro modelo Packard, que um abastado passageiro levava a bordo do navio e com ele subiu a serra chegando na cidade de São Paulo.

Gable hospedou-se no luxuoso Hotel Esplanada, no Vale do Anhangabaú, cuja a vista dava para o Teatro Municipal e a praça Ramos de Azevedo (na época chamada de Esplanada do Teatro). Em frente ao hotel, falou rapidamente com a imprensa, e disse não ter programação, que apenas desejava curtir suas férias e conhecer a cidade de São Paulo, cujo progresso e beleza ele conhecerá através de reportagens de revistas americanas que a retrataram. Disse também que achou encantador o pouco que conseguiu ver, e chamou o povo brasileiro de “batuta”, assim mesmo, em português, usando uma gíria que aprenderá ainda a bordo do navio. Demonstrou-se disposto a conversar mais com os jornalistas, mas a sua pouco simpática entourage tratou logo de despachar a imprensa que o cercava.

 

: Gable com jornalistas em frente ao Hotel Esplanada

 

Após se refrescar em seu quarto, Gable e sua equipe foram jantar no recém inaugurado Automóvel Club de São Paulo, à Rua Libero Badaró (onde atualmente fica o edifício Conde Prates). O ator foi a grande atração da sociedade paulista que jantava no salão, mas seu Packard americano também fez tanto sucesso que acabou ficando nas mãos de um empresário que fez uma oferta milionária pelo veículo (que dizem ainda existir, estando atualmente nas mãos do cantor Sólon Salles).

Na madrugada, Clark Gable retornou ao porto de Santos, rumo ao Rio de Janeiro, onde passaria poucas horas. Embora tivesse dito que iria a capital fluminense de trem, para despistar as fãs, foi surpreendido por uma praça Mauá lotada pela multidão que queria vê-lo. Os estudantes cariocas, por conta própria, declararam feriado escolar e compareceram em peso ao porto para lhe darem as boas-vindas. O ator relutou em descer em meio ao tumulto, e acabou saindo do navio discretamente pelo outro lado, numa pequena lancha cedida pela marinha. Por causa do tumulto, não pode realizar seu sonho de subir ao Corcovado, mas passou uma tarde agradável no Yatch Club na enseada de Botafogo, onde almoçou com William Melniker (o diretor do departamento sul americano da MGM) e com sua esposa, a cantora brasileira Laura Suarez.

 

 

Ao final do dia, retornou ao navio, onde recebeu os cumprimentos de outra passageira ilustre, a atriz e cantora Lupe Velez, sua colega de Hollywood, que encerrava uma bem sucedida temporada ao microfone da Rádio Ipanema, localizada no último andar do badalado Casino Atlântico, na praia de Copacabana.

 

: Clark Gable, no Rio de Janeiro, em frente do prédio do Jornal A Noite, onde situava-se a Rádio Nacional

 

Clark Gable disse que retornaria ao Brasil em suas próximas férias para conhecer o país melhor, mas nunca mais voltou. O ator faleceu em 16 de novembro de 1960, aos 59 anos.

 

PARA VER O VÍDEO COMPLETO clique aqui.

 

Diego Nunes é gaúcho, formado em Rádio e TV pela Universidade Metodista de São Paulo, é pesquisador da memória cultural e artística, e sua paixão é o cinema. Além disso, atua como diretor cultural da Pró-TV, Museu da TV Brasileira, e no departamento de arquivo da Rede Record de Televisão.

 

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