Quarta-feira, 18 de JULHO de 2018

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3º Neurônio | cinema

A cinematográfica história do índio que inspirou o Oscar

Publicada em 04/03/2018 às 21h22| Atualizada em 06/03/2018 às 09h23

Neste domingo ocorrerá a 90ª cerimônia de entrega dos Academy Awards (ou Oscars 2018). Sabe como a famosa estatueta dourada foi criada pelo diretor de arte da Metro Goldyn Mayer (MGM) Cedric Gibbons, um dos fundadores da Academia?. Gibbons precisava de um modelo para os primeiros esboços, e sua namorada (com quem se casaria algum tempo depois) indicou um amigo para servir de modelo, o mexicano Emilio Fernández, conhecido como 'El Indio'.

Emilio, então figurante do estúdio, recusou o convite a princípio, já que teria que posar nu para os desenhistas. Mas precisando de dinheiro, aceitou o convite. E assim, o prêmio mais famoso do cinema ganhou os traços de um antigo guerrilheiro mexicano exilado nos Estados Unidos.

 

 

Quem foi 'El Indio'

 

Emilio 'El Indio' Fernandez nasceu em Coahuila, em 26 de março de 1904. Filho de um general revolucionário e de uma índia kikapú, tinha orgulho de suas raízes indígenas e sempre as deixou evidentes em sua obra.

Adolescente, integrou as fileiras da Revolução Mexicana. Em 1923 lutou contra o governo de Alvaro Obregon. Derrotado, foi preso e fugiu da cadeia. Na ilegalidade, precisou fugir do país. Cruzou a fronteira (ainda sem muros, mas igualmente hostil) e entrou nos Estados Unidos, chegando na Califórnia. Lá trabalhou em diversos empregos, como ajudante de lavanderia, garçom e finalmente pedreiro. E foi contratado como pedreiro que entrou pela primeira vez em um estúdio em Hollywood.

Com feições fortes, foi chamado para fazer pequenas figurações em filmes que exigissem índios mexicanos e também foi dublê do ator Douglas Fairbanks. Seu amigo Adolfo de la Huerta, ex presidente interino durante a revolução mexicana, foi quem lhe recomendou a se dedicar mais ao cinema, para adquirir conhecimento e levá-lo para o México, devido ao seu enorme poder de alcance para instruir a população.

 

 

Durante sua estada nos Estados Unidos, ficou impressionado com o trabalho do cineasta Serguei Eisenstein, recém-chegado ao país. A estética do cineasta era diferente de tudo que El Indio havia visto em Hollywood. Após ver trechos de Que Viva México! (1932), projeto não terminado do cineasta, Emilio decidiu que esta seria a inspiração para fazer seus próprios filmes em seu país natal.

De volta ao México, precisava levantar dinheiro para financiar seus projetos, e aproveitou a “fama” de ter atuado em Hollywood para atuar em papéis maiores em seu país. Em 1934 protagonizou Janitzio, que lhe deu grande popularidade. Mas foi somente em 1941 que conseguiu realizar seu primeiro filme, La Ilsa de Pasion, com apoio financeiro do ator David Silva (na época apenas um abastado estudante de direto).

Em 1943 foi contratado pelos estúdios Filmes Mundiales, onde conheceu o roteirista Mauricio Magdaleno e o diretor de fotografia Gabriel Figueroa. Juntos formaram um trio profissional que durou mais de quarenta anos, e que se tornaram ícones da era de ouro do cinema mexicano. Flor Silvestre (1943) foi o primeiro filme que fizeram juntos, e marcava a estreia da estrela mexicana Dolores del Rio, de carreira internacional, em seu país de origem.

O filme contava a história de um rapaz de posses que largava tudo para se casar e acabava se juntando a luta de Pancho Villa. Em seguida, fizeram Maria Candelária(1943), que ganhou o prêmio de melhor filme no Festival de Cannes de 1946.  Em 1945 Emilio Fernandez dirigiu Pérola (La Perla, 1945), baseado numa história do escritor norte-americano John Steinbeck (de As Vinhas da ira). O filme, considerado uma grande obra prima, foi um dos mais importantes da carreira do diretor, e tinha como temática a miséria humana.  Ganhou menção honrosa no Festival de Veneza e deu lhe popularidade internacional. A obra de Fernandez falava sobre o povo mexicano, o México rural e valente. Querendo falar para seu povo, acabou divulgando o cinema mexicano para o mundo.

 

: Pedro Armendariz e Dolores del Rio em Maria Candelaria (1946)

 

O diretor continuou trabalhando muito nas décadas seguintes, mas seu nome foi ofuscado pela presença do espanhol Luis Buñel em seu país. Paralelamente, continuava atuando em pequenos papeis de indígenas em Hollywood para conseguir ganhar dinheiro, usado em suas produções cinematográficas. Nos Estados Unidos dirigiu um único filme Do Ódio Nasce o Amor (The Torch, 1950), que tinha Paulette Goddard e Gilbert Roland nos papéis principais, além de Pedro Armendáriz, um de seus atores favoritos. O último filme que dirigiu foi Erótica (1979), uma produção sem muita relevância em sua carreira. Atuaria ainda em pequenos papéis até a década de 80.

 

: Com Gabriel Figueroa durante as filmagens de Una cita de amor (1956)

 

Nos últimos anos de vida teve problemas com a justiça, sendo preso por brigas algumas vezes. Solitário, vivia da renda da venda de produtos que plantava em seu quintal. Em 1986 quebrou o fêmur e foi internado em um hospital. Durante o tratamento, recebeu uma transfusão de sangue contaminado com malária, que agravou o seu quadro de saúde.

Emilio 'El indio' Fernandez morreu em 6 de agosto do mesmo ano, aos 82 anos.

A casa onde vivia foi transformada em um centro cultural, e é administrada por sua filha Adela até os dias de hoje.

Apesar de ter dirigido 129 filmes, o diretor nunca foi sequer indicado para o Oscar, prêmio que leva seu rosto. Nem mesmo chegou a ter reconhecimento como cineasta nos Estados Unidos. Apenas seu fiel diretor de fotografia, Gabriel Figueroa concorreu ao prêmio por seu trabalho no filme A Noite do Iguana (The Night of the Iguana, 1964), de John Ford.

O primeiro diretor latino indicado a um Oscar seria o brasileiro Hector Babenco, por O Beijo da Mulher Aranha (1985). Mas só recentemente que um diretor latino foi agraciado com tal prêmio, o mexicano Alfonso Cuarón, pelo filme Gravidade (Gravity, 2013).

 

: Emilio Fernandez ensinado Marilyn Monroe a beber tequila

 

Filme Maria Candelaria (em espanhol)

 

 

Diego Nunes é gaúcho, formado em Rádio e TV pela Universidade Metodista de São Paulo, é pesquisador da memória cultural e artística, e sua paixão é o cinema. Além disso, atua como diretor cultural da Pró-TV, Museu da TV Brasileira, e no departamento de arquivo da Rede Record de Televisão.

Acompanhe-o pelo Memória Cinematográfica.

 

 

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