Terça-feira, 17 de JULHO de 2018

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3º Neurônio | poder

O filósofo italiano Giorgio Agamben fotografado na Espanha em 2014

O estado de exceção se tornou norma

Publicada em 03/05/2018 às 14h20| Atualizada em 07/05/2018 às 14h50

Giorgio Agamben, o pensador italiano, que publica no Brasil O Fogo e o Relato, fala de filosofia, de arte, de poesia e da tendência política do mundo atual. O Diário recomenda e reproduz a entrevista publicada pelo El País

 

Se há um filósofo característico do presente é Giorgio Agamben. Nasceu em Roma em 1942, mas sua obra globalizada não pode desligar-se de suas atividades na França, Inglaterra e Alemanha, entre outros países em que trabalhou. É fácil detectar nela a influência de Martin Heidegger, Walter Benjamin e Michel Foucault, mas também as de Kafka e do situacionista Guy Debord. Agamben chegou à universidade para estudar Direito, mas se inclinou pela filosofia depois de assistir entre 1966 e 1968 a alguns seminários com Martin Heidegger. Foi o mesmo período, recorda, em que descobriu Benjamin: “Dois autores muito diferentes. Um era o contraveneno do outro”.

Sua obra, que nunca perde de vista a relação do homem com a linguagem, não se esgota na filosofia, mas se estende por todos os campos do saber: da literatura às artes plásticas, da filologia à antropologia, passando pela teologia e, claro, pela política. Entre as pessoas com quem estabelece estreita relação há filósofos: Gilles Deleuze, Jacques Derrida, Jean-François Lyotard, Pierre Klossowski; mas também cineastas como Pier Paolo Pasolini, ou escritores: Elsa Morante, Ingeborg Bachmann, Italo Calvino. Ensina Filosofia em Veneza e dirigiu a edição italiana das obras de Benjamin. A editora Boitempo acaba de lançar no Brasil sua obra O Fogo e o Relato, com o subtítulo Ensaios sobre Criação, Escrita, Arte e Livros.

Mesmo nos textos mais filosóficos, em Agamben se entrecruzam outros discursos. Em uma de suas obras mais lidas, Homo Sacer – O Poder Soberano e a Vida Nua (Editora UFMG), parte de Hannah Arendt e Foucault, mas não se esquece da contribuição de Kafka para definir a situação do homem contemporâneo. “A literatura e a poesia foram sempre muito importantes para mim. Não acredito que possam ser separadas da filosofia. Não são campos incomunicáveis. Eu diria que são duas intensidades que atravessam o campo da linguagem humana”, explicava Agamben em uma entrevista em 2016 a o EL PAÍS, quando foi publicado em espanhol o mesmo livro que agora sai no Brasil. Na realidade, seriam atividades destinadas a se cruzarem. “Aquilo que a poesia realiza com o poder de dizer, a política e a filosofia devem realizar com o poder de agir”, sustenta em O Fogo e o Relato. Já em Hölderlin a poesia “marca o ponto em que o poeta, que vive como uma catástrofe a ausência do povo –e de Deus–, busca refúgio na filosofia, deve se tornar filósofo”. Mas “a filosofia moderna fracassou em sua tarefa política porque traiu sua tarefa poética, não quis ou não soube arriscar-se na poesia”. Heiddeger tentou, mas “não conseguiu se tornar um poeta”.

Homo Sacer, uma de suas obras mais difundidas, prossegue os trabalhos sobre biopolítica dos últimos textos de Foucault: a vida como objeto político. “Não acho que na filosofia se possa distinguir, como se faz na universidade, entre filosofia da política, da moral, da linguagem. A filosofia é única. A filosofia é sempre política”, disse o filósofo naquela conversa com o EL PAÍS. E há um aspecto da história recente que acaba mostrando-se como o paradigma da sociedade moderna: os campos de concentração, um espaço onde a lei fica em suspenso, um perpétuo estado de exceção onde, diz com Hannah Arendt, “tudo é possível”. O homem enclausurado neles é marginalizado da sociedade pelo próprio Estado: é o homo sacer, sagrado. Não pode ser sacrificado, mas sua morte não constitui homicídio e pode ser assassinado impunemente.

“O estado de exceção era um dispositivo provisório para situações de perigo. Hoje se tornou um instrumento normal de governo. Com a desculpa da segurança diante do terrorismo, se generalizou. A exceção, por isso se chamava estado de exceção, é norma. O terrorismo é inseparável do Estado porque define o sistema de governo. Sem o terrorismo, o sistema atual de governo não poderia funcionar. Há dispositivos como o controle das impressões digitais, ou o escaneamento que te fazem nos aeroportos, que foram adotados para controlar os criminosos e agora são aplicados a todos. Da perspectiva do Estado, o cidadão se transformou em um terrorista virtual. Do contrário, não se explica o acúmulo de câmeras que nos vigiam em todas as partes. Somos tratados como criminosos virtuais. O cidadão é um suspeito, numerado, como em Auschwitz, onde cada deportado tinha seu número”. Com algo a não perder de vista: o estado de exceção dos campos é o mesmo que impera nos organizados para os refugiados.

Tudo isso conduz a uma quebra da legitimidade do poder. “Isso se dá em muitos Estados: há legalidade, porque as leis são cumpridas, mas não há legitimidade. Como consequência os cidadãos confiam menos nas urnas, e a abstenção cresce. Um fenômeno que não havia ocorrido antes e que está relacionado com o fato de as pessoas terem se dado conta de que os Governos não são verdadeiramente legítimos. Legais, sim; mas não legítimos.”

Dessa perspectiva, Agamben considera a relação entre ética e política. “A ética moderna, desde Kant, se constitui como uma ética do dever, dominada pelo imperativo. Tentei criticar a ética do dever e substituí-la por uma doutrina, procedente do mundo clássico, que valorize a ideia de felicidade, a vida boa. Em um sentido político. O dever é uma ideia de origem cristã. O homem é um ser em dívida. Isso significa dever: estar em dívida.”

A ideia do dever não só regula a ética kantiana, também se estende ao mundo da economia. “A economia de hoje está baseada na ideia da fé e do dever, do crédito e do débito. São dois conceitos que provêm do mundo da fé. ‘Fé’, em grego, se chama ‘pistis’. Há uma história muito bonita. Um historiador da religião, professor em Jerusalém, estava trabalhando sobre o conceito de f é (’pistis’). Pretendia entender o que é. Um dia estava em Atenas, levantou os olhos e viu escritas as palavras: ‘Banco de pisteos’. Banco da Fé, leu, mas na realidade o que estava escrito era Banco de Crédito. Foi sua iluminação: fé significa crédito. É o crédito que se outorga à palavra de Deus. E, para nós, é o débito para com Deus. É muito esclarecedor: a economia e a ética estão baseadas nos mesmos conceitos: débito e crédito. Porque, o que é o dinheiro senão um crédito? Sobretudo depois que Richard Nixon separou o dólar do padrão ouro. O que resta nas notas é um puro crédito sem conteúdo. Temos crédito em um débito que não está garantido por nada.”

 

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