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3º Neurônio | comportamento

Do lado esquerdo, Manu Tenorio em dezembro, do lado direito nesse final de semana

Doutor, quero me parecer com minha selfie

Publicada em 22/08/2018 às 17h18

Cada vez mais requisitantes de cirurgias plásticas tentam parecer com suas fotos retocadas em filtros de aplicativos. O Diário recomenda e reproduz o artigo publicado pelo El País

 

Nós nos acostumamos a nos ver com orelhas de cachorro sobre nossa cabeça e até com olhos totalmente desproporcionais. Os filtros de aplicativos como o Snapchat, Instagram e Facetune permitem que mudemos a aparência física a nosso bel-prazer. Muitas vezes porque a selfie ficou muito escura, mas em outras será para ressaltar as maçãs do rosto e clarear a pele. Esses apps se transformaram em verdadeiros laboratórios fotográficos digitais à procura da aprovação social do like e, para um número cada vez maior de pessoas, delas mesmas. Os pacientes de cirurgias plásticas que querem se parecer com seu eu do celular aumentaram no último ano. Esse fenômeno tem nome graças a um artigo da doutora Neelham Vashi na revista de cirurgia plástica JAMAdismorfia do Snapchat.

Um estudo da Academia Norte-americana de Cirurgia Facial, Plástica e Reconstrutiva afirma que 55% dos cirurgiões plásticos receberam em 2017 pacientes que queriam operar para sair melhor nas selfies – especialmente adolescentes –. Como Vashi explica na publicação, são pessoas que tentam se parecer com uma versão fantasiosa de si mesmas. “As pessoas levam suas fotos de determinados ângulos e com certos tipos de luz”, afirma. O risco de querermos nos transformar em uma versão filtrada de nós mesmos, de transformar o físico através de aplicativos e de ficarmos obcecados por isso que chamamos de defeitos é cair em um transtorno dismórfico corporal (TDC). “As redes sociais se transformam em um acelerador para esse tipo de pessoa, que se preocupa por como se parece diante dos outros”, afirma a doutora.

O TDC, que afeta aproximadamente 2% da população mundial, de acordo com as conclusões de Martha Giraldo, doutora em psicologia, e Amparo Belloch, professora de psicopatologia, continua sendo um transtorno pouco reconhecido e pouco diagnosticado pela ocultação dos sistemas por parte dos pacientes. “A identificação precoce é essencial no desenvolvimento e andamento do transtorno, assim como na efetividade do tratamento”, afirmam. A dismorfia do Snapchat uniu psicólogos e cirurgiões plásticos, por mais afastados que seus mundos possam parecer. A doutora Ainhoa Placer, especialista em cirurgia plástica e reparadora, ainda não precisou atender ninguém que apareceu em sua clínica de selfie na mão. Ainda assim, sabe qual é o limite ético em sua profissão. “Se suspeito que o paciente tem TDC, não o operaria e o enviaria a um especialista em transtornos mentais”, diz.

A doutora Placer entende que a intenção de se retocar por não gostar do que se vê nos autorretratos está aumentando, ainda que não seja frequente por enquanto, pela quantidade de tempo que passamos diante do celular. “Ele se transformou na câmera de muitas pessoas. As selfies, que não têm o melhor foco, podem maximizar determinados traços dos quais não gostamos e até vê-los piores do que são”, afirma. O problema começa quando a ajuda dos filtros para melhorar uma imagem muda de uma simples edição a nos levar a uma sala de cirurgia.

A exposição pública aumentou continuamente conforme as redes sociais se consolidaram como mais uma opção de consumo tecnológico. Influenciadores, youtubersinstagramers... inúmeras novas profissões que dividem seu exibicionismo cotidiano. Mas o restante dos usuários também se somou ao escrutínio dos demais e chega a ter problemas para discernir entre a vida real e a virtual. Um estudo da Royal Society for Public Health publicado em maio determinou que o Snapchat, o Facebook, o Twitter e principalmente o Instagram afetam mentalmente os jovens. “Exageram as preocupações pelo corpo; pioram o assédio e a insônia; e favorecem os sentimentos de ansiedade, depressão e solidão”, resumiu a diretora da pesquisa, Shirley Cramer, como as principais conclusões após entrevistas com 1.500 pessoas de 14 a 24 anos.

Nessa tendência por se transformar em uma selfie constante, como lembra a doutora Placer, é preciso colocar um pouco de sensatez. “O paciente deve falar com um cirurgião antes de realizar qualquer procedimento, saber as possibilidades de tratamento, conhecer as expectativas realistas para cada caso e avaliar os riscos”, afirma. O sinal da alerta já começou a soar nos Estados Unidos, à margem de todos os conselhos que possam ser dados para prevenir transtornos ainda maiores. O Snapchat conseguiu dar nome a um TDC com sua facilidade para alongar cílios, estreitar cinturas e redefinir mandíbulas. Uma coisa é compartilhar nas redes sociais fotos e outra é nomear, literalmente, um filtro mediante retoques em uma sala de cirurgia.

 

 
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