Domingo, 22 de OUTUBRO de 2017

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opinião

Jornalista faleceu na noite desta quarta-feira, em Porto Alegre

Partiu Santana - Uma crônica de Cláudio Dienstmann

Publicada em 20/07/2017 às 14h20| Atualizada em 21/07/2017 às 10h26

Quem melhor definiu Paulo Sant'Ana na manhã desta quinta-feira 20 de julho foi o presidente do Grêmio, Romildo Bolzan Júnior. “Era um homem de posições definitivas – para o bem e para o mal”, disse Bolzan.

Sant’Ana, que chamava a si mesmo de gênio e “Pablo”, era isso: um ser humano, com erros e acertos, virtudes e defeitos, só que tudo aos extremos, admirando e menosprezando, amando e detestando. Vaidoso, e por isso muitas vezes arrogante, podia humilhar as pessoas. Humano, generoso, gostava de elogiar algum texto de colega, e de abrir o precioso espaço de sua coluna para publicar algo que alguém tivesse escrito sobre seus cachorros (no caso, o Átila e o Tiger).

Era admirado e invejado. De origem humilde, rondou os estúdios da Rádio

Gaúcha até ganhar espaço e estrelato no “Sala de Redação” e na “Zero Hora” e “TV Gaúcha”. Progrediu culturalmente, muito, e passou a tratar de outros assuntos além do futebol – e do Grêmio. Refinou-se. Ao mesmo tempo, a proximidade com a família Sirotsky desde os primórdios difíceis da RBS foi causa de grandes brigas com pessoas que não tinham essa relação íntima.

Na morte do jornalista Cid Pinheiro Cabral, seu colega do “Sala” e que até mesmo antes de Sant’Ana declarar seu gremismo já era conhecido por ser colorado, “Pablo” contou certa vez que na madrugada do velório ficou sozinho com o caixão. “Aí aproveitei e espalhei um monte de escudinhos do Grêmio embaixo do corpo do Cid – ele ainda deve estar se revirando até agora”, confessou.

Sadismo? Clubismo? Gozação? Tudo isso e muito mais, tudo junto. É difícil comentar sobre alguém que morreu. Uma porque morto geralmente não tem defeito, outra porque fica feio falar mal de quem já não pode se defender. Então é preferível lembrar do Sant’Ana numa madrugada em Turim, em 1990, na Copa do Mundo na Itália, cantando “O rancho da goiabada, de João Bosco e Aldir Blanc, com consagração por Elis Regina. E como ele cantou, como aquilo foi e continua emocionante:

 

Os bóias-frias quando tomam umas birita

Espantando a tristeza

Sonham com bife-a-cavalo, batata-frita

E a sobremesa

É goiabada-cascão com muito queijo

Depois café, cigarro e um beijo

De uma mulata chamada Leonor ou Dagmar

Amar

O rádio-de-pilha, o fogão-jacaré, a marmita, o domingo no bar

Onde tantos iguais se reúnem contando mentiras

Pra poder suportar

Ai, são pais-de-santo, paus-de-arara são passistas

São flagelados, são pingentes, balconistas

Palhaços, marcianos, canibais, lírios, pirados

Dançando dormindo de olhos abertos à sombra da alegoria

Dos faraós embalsamados

 

Espantando a tristeza, cigarro, rádio-de-pilha, domingo no bar, sonhando com bife-a-cavalo e um beijo, pirado, dançando e dormindo de olhos abertos à sombra da alegoria. Partiu Sant’Ana.

 

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