Domingo, 17 de NOVEMBRO de 2019

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opinião

A vida não é um filme, baby

Publicada em 20/12/2018 às 12h01| Atualizada em 05/02/2019 às 15h12

*Lua Kliar

Um tabaco recém fechado.

Um copo de café sem açúcar. Com tampa.

Estação central.

Roupa estilosa pro frio alemão.

Tô na Europa. Não tô de viagem.

Atravesso a rua.

Vento balança o novo tom de rosa do meu cabelo.

Perfume Dolce&Gabbana.
 

Atravesso a praça e passo pelo Mc da esquina. Não tem pão de queijo no café da manhã aqui. Merda!

Tô indo pro meu curso de línguas.

Tenho português, inglês, alemão, espanhol. Fluente, fluente mesmo só o português. Tem um pouco de italiano também, ou português com entonação italiana.

Meu pai gesticulava muito. Eu sou igual. Herança essa que ajuda na língua do país que parece uma bota no mapa mundi.

 

O Diabo veste Prada.

Tem uma centena de outros filmes com mulheres nas ruas de NY com tabaco, café sem açúcar com tampa, perfume bom, um namorado gatíssimo e tudo mais. Mas esse é o que eu sempre lembro. Porque tem a Maryl Streep, a Anne Hathaway (que tem os peitos dos meus sonhos) e ainda a Gisele Bündchen e Emily Blunt.

Eu queria ser essa mulher. Eu queria trabalhar numa revista. Não necessariamente de moda, porque não manjo e tenho preguiça. Eu queria trabalhar numa revista. Eu fiz meu TCC sobre uma revista. Mas eu queria mais ainda era trabalhar com cinema. Eu queria ser a atriz principal porque me falaram que eu sou boa nisso. Os amigos, os profissionais e meu ex namorado diplomado em artes cênicas. Pra quem eu mostrei muito do sei que fazer. Obrigada, Nico. Eu me arrependo de ter ficado tanto tempo contigo, mas ok. Obrigada! Tá tudo bem agora.

 

Eu não tô bem com o presente.

Eu tô na Europa. Mas eu queria estar nos EUA. Sim, eu quis estar na Europa, mas eu queria estar nos EUA. Eu não quis ficar no Brasil. Eu não fiquei.
 

Eu queria que meu café custasse mais caro porque eu queria poder pagar mais por ele. Eu queria que o Mc tivesse pão de queijo porque eu amo pão de queijo.

Eu queria mesmo era trabalhar com cinema. Eu adoraria ter uma coluna numa revista. Porque eu amo revista. Porque eu amo escrever. Porque eu sou boa nisso, mas só quando eu quero.

Eu queria ser a atriz principal, já falei. Mas eu queria muito ser a diretora. Porque isso tem a ver com muitas outras coisas que não cabem aqui. Assim como ser roteirista. Eu sei os porquês e eu vou guardar eles pra mim.

Eu queria estar bem com o presente. Mas tá 4 graus. Eu odeio frio! Embora 4 seja meu número da sorte. Eu queria ter parado de fumar. Eu me arrependo profundamente de não ter trazido meu tarja-preta.

Eu não estou bem com o presente. Eu moro sozinha. Eu sempre quis isso. Esse sempre pode começar quando eu tinha uns cinco anos de idade e reuni na minha mochila tudo aquilo que achava necessário para sobreviver e fui porta a fora. Minha vó se desesperou e depois de muito tempo me encontrou e me arrastou pela orelha esquerda até a porta de casa. No caminho gritava as ameaças de uma surra que foi dolorosamente cumprida e comprida. Apanhei de novo quando a minha mãe chegou em casa. Eu quis mais ainda sair de casa. Eu tinha cinco anos. Isso faz vinte anos e eu não tô com a vida ganha, mas sai de casa e já faz cinco anos.   Mas também já voltei. Mas agora não volto mais. Mas adoraria o feijão, o colo da mãe e a novela das nove que eu não sei nem o nome.

Eu queria estar nos EUA beijando a boca do Alex Turner e nem me importaria tanto com os vícios que eu retomaria em grande estilo. Seria capa de revista. Escreveria pra uma revista. Seria rica. Mas na verdade eu preferiria um carinha tipo o Harry Styles porque acho ele um amorzinho e não quero um amor maior que amorzinho. Modesta. Até porque eu deixei meu tarja-preta que eu queria tomar junto com meu café sem açúcar no copo com tampa. Só pra bater junto com a cafeína. Minha definição de equilíbrio.
 

Eu reconheço todos esses privilégios. Tem gente que não chega na esquina. Ou chega na esquina e não sai dali. A Gisele Bündchen (segunda vez que ela aparece nesses texto, que estranho) escreveu um livro. Ela fala muito sobre suas angustias. Ela fala muito sobre o peso de ter a vida perfeita para os outros, menos para ela. Porque é isso. Não é o lugar. O que tu tem na mesa. Quantos graus tá na rua.

Importa mesmo é se tu te sente em casa no lugar onde tu habita. Se tu pode comprar aquilo que tua fome pede. Se tu tens um casaco para não morrer de frio. Eu tenho tudo isso e queria que todo mundo tivesse. Até aquelas pessoas que eu não gosto, eu ainda gostaria que elas tivessem.

Tá quatro graus. Meu número da sorte. Vai que aconteça alguma coisa hoje. Meu café sem açúcar com tampa tá gelado. Azar!

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