Sexta-feira, 20 de SETEMBRO de 2019

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lunática

No bater das chaves

Publicada em 07/04/2019 às 22h45| Atualizada em 17/04/2019 às 13h16

Odiava o bater das chaves quando destrancava a porta. Destrancar a porta sinalizava que a porta havia sido trancada quando ela saia. Se a porta era trancada faltava-lhe segurança. Ou havia ela algo a esconder por trás de portas e fechaduras serradas? Isso era seu costume, costume de onde vivera seus vinte e cinco anos. Onde se tranca as portas, o máximo que puder.

Não queria causar duvidas ou, sequer, impressões. Não queria causar nada. Queria parecer invisível como o vento.

A mulher tocava as pontas dos dedos indicadores nas teclas negras do teclado ligado ao computador. Como faziam os velhos que não foram habituados em sua juventude porque não existiam computadores e assim, não sabendo datilografar com os demais dedos, cumpria sua arrastada escrita.

Isso reduzia a velocidade de seu raciocínio, que parecia ser tão lento quanto os seus pés ao subir as escadas, curvando pouco a pouco a coluna à medida que o topo se aproximava. No final, então podia espreguiçar-se e seguir a passos igualmente lentos, desaparecendo no corredor banhado pela luz natural do dia.

Não havia sol, mas havia luz. Esses dias não eram mais tão raros no mês de fevereiro como foram no mês anterior. A proximidade da primavera florescia as ruas e jardins cuidados como se cuida a moleira de um recém-nascido. Ela trazia flores nas estampas de roupas e nos armazéns. Semana sim, semana não a mulher comprava flores. Espalhava-as pelos cantos, escadas e pequenas mobílias cor de café que comportavam livros de capa de couro. Uma delas portava, também, um telefone do século dezoito, cor de oliva recém colhida.

A menina tossia atrás da porta cor de gelo. Mas essa, diferente das outras dezenas de portas cor de gelo, era interrompida por uma folha sulfite que carregava seu nome em letras garrafais e azuis. Talvez gostasse de seu nome, uma vez que era mais fácil de ser pronunciando do que o de sua irmã mais velha, que já não vivia mais naquela casa. A irmã mais velha não vivia na casa assim como seu pai que morrera de mal súbito numa partida de futebol há cinco verões, embora ela ainda estivesse viva carregando por outros lugares, que não a casa, seu nome quase que impronunciável.

Odiava o bater das chaves porque eles anunciavam sua presença. Anunciavam que outra pessoa, que não a mulher e nem a menina, estavam presentes na casa. Também não era o pai porque esse já estava enterrado ou cremado, e nem a filha mais velha que já não vivia ali. Era uma estrangeira que locava o último andar. Era uma estrangeira para a casa e para a nação. Uma estrangeira que não queria ser percebida para evitar não só o contato em outra língua, mas para não interromper aquele que parecia um momento de concentração da mulher, enquanto dedilhava o teclado à trabalho. E também não só por atrapalhar o serviço que fazia, mas muito para não trazer a mulher de volta a realidade que uma estrangeira morava na casa, e não seu marido morto subitamente e nem sua filha mais velha que vivia em qualquer outro posto que não ali.

A mulher vira o pescoço e lança um sorriso dócil, mas sua íris quase coberta por suas pálpebras pesadas de cansaço. A mulher não parece tão triste quanto poderia estar, e nem tão feliz como vez ou outra demonstra ser. Uma mulher indecifrável que agora levanta da cadeira que range as molas por falta de óleo e excesso de idade, para acudir em seus braços a menina que tosse enquanto a estrangeira sobre as escadas e destranca a porta sem se preocupar com o barulho, pois já tinha sido percebida.

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