Segunda, 21 de OUTUBRO de 2019

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Você gosta de chocolate?

Publicada em 06/08/2019 às 15h25| Atualizada em 11/08/2019 às 22h42

por Marcelo Godoy

Você gosta de chocolate, preto? Perguntou o guarda do supermercado.

Gerônimo, com os lábios trêmulos, respondeu, perdoe-me eu não farei mais isso. Seus olhos castanhos e brilhantes encheram-se de lágrimas, Jairo, um negro alto e Forte que fazia a segurança do mercado não pensou duas vezes, pegou o pequeno Gerônimo pelo cangote e o levou até uma salinha em que chamavam de reformatório E ficava no sub-solo do estabelecimento, com seu corpo franzino é completamente trêmulo Gerônimo sentiu a dor da primeira cacetada que pareceu dilacerar suas pernas, a segunda. Acertou em cheio suas costelas, lhe faltou o ar e as lágrimas rolaram pela sua face, apenas um mísero chocolate, pensou, a mãe e os irmãos estavam em casa, o pai havia falecido a dois anos, alcoólatra inveterado, vítima de cirrose hepática e tuberculose, deixou aos 41 anos de idade, Gerônimo, sua mãe e dois irmãos mais novos.

Com 12 anos de idade Gerônimo conhecia a dor do preconceito e as dificuldades de viver em uma grande cidade, principalmente quando se é preto, pobre e de uma família desestruturada. A vida ensinou-lhe logo cedo que nada seria fácil. O doce sabor de um pequeno galak , transformara-se em um amargo gosto da desesperança. Saindo dali depois de ter sido agredido e humilhado, Gerônimo tinha uma única certeza em sua alma de menino, mudaria completamente sua história e daria a ele e sua família aquilo que sempre sonharam,  sua cabeça era um turbilhão de pensamentos, vergonha, medo, tristeza , mas não sentia apesar de tudo rancor algum.

A vida era dura em uma periferia às margens de um grane centro, Tereza conseguiu um trabalho como diarista, chamou seus três maiores tesouros e disse: Gerônimo, como és o que tem mais idade ficará de responsável pelos menores, mamãe vai sair cedo e mesmo que nada seja o que sempre sonhamos, teremos o pão com a dignidade do suor de meu rosto, a vida tornara-se melhor, Tereza tinha muitas qualidades como dona de casa e em menos de um ano sua agenda estava lotada, muitas famílias a contratavam e apesar de uma rotina extenuante seus filhos iam para escola e comiam o pão de cada dia com alegria em um humilde lar, mas um castelo onde sobrava amor, carinho e cumplicidade.

Dois anos mais tarde Teresa foi diagnosticada com um tipo de diabetes bem severo e sem dar muita atenção e importância ao tratamento, teve uma de suas pernas amputadas depois de ter sofrido um pequeno acidente que provocaram queimaduras enquanto trabalhava em uma cozinha nas casas as quais era diarista.

Gerônimo com 15 anos cursando o primeiro ano do ensino médio, tentando um estágio ou mesmo uma oportunidade de emprego em um país com milhões de desempregados sentia-se frustrado a cada dia em que não obtia o êxito esperado, via a mãe em uma situação de desamparo, depois de ter esmerado-se tanto para garantir o sustento e agora necessitava da ajuda dos seus irmãos mais novos para um simples deslocar-se da cama até a mesa para o café.

Sentia  que como mais velho deveria ser o provedor do sustento da família, mais as chances e ofertas para um emprego ou mesmo um estágio eram raríssimas, passou a estudar a noite e na escola Alberto de Campos conheceu Samuel, um jovem de sorriso altivo e de fácil comunicação, sempre bem vestido, mais o que mais chamava a atenção era o brilho dos cordões que adornavam seu pescoço, todo dia um relógio diferente combinando com um novo par de tênis, passou a ser um modelo daquilo que Gerônimo queria tornar-se, a proximidade e amizade foi aumentando e enquanto Gerônimo contava as dificuldades, Samuel falava sobre festas, amigos, meninas e o novo carro que havia comprado, falou para o Gerônimo que na próxima sexta tinha um serviço, coisa rápida e ganho garantido.

25 de agosto de 1994 às 22:35h. Um carro estaciona em uma loja de conveniências em um posto de combustíveis na Avenida Paraguassu, a mais movimentada da cidade, Samuel, Gerônimo e mais um comparsa descem de um veículo de que ficará estacionado a 10m do local, Samuel aponta o revólver calibre 38 para a atende do caixa e anuncia o assalto enquanto Gerônimo e o outro amigo pegavam tudo que seria possível caber em uma mochila, o que eles não esperavam é que uma viatura policial estava a 20m do local e aproximava-se lentamente, um dos frentista conseguiu fazer um gesto com a cabeça, um sinal que já haviam combinado com a polícia caso estivesse acontecendo um assalto ou qualquer ação que fugisse da normalidade, rapidamente a viatura estacionou em frente à loja.

Samuel sacou a arma e começou a efetuar disparos em direção a pista, o amigo que estava no carro acelerou e fugiu do local, Gerônimo e o outro amigo esconderam-se atrás das prateleiras em meio a estilhaços e vidros de garrafas quebradas, até que um silêncio em meio a uma violenta troca de tiros tomou conta do local, Samuel estava caído no chão da loja, um tiro havia acertado seu rosto e outro em seu peito,  morreu no local.

Gerônimo e o amigo entregaram-se para polícia, ambos portavam duas pistolas de brinquedo.

Gerônimo foi levado para um local chamado CRIJ – centro de recuperação infanto-juvenil, os dias e as noites pareciam intermináveis naquele local, apesar das oficinas de artesanato, a horta e os afazeres domésticos, Gerônimo passava mais tempo na grande biblioteca do CRIJ onde desenvolveu um gosto apurado pela leitura de poesias e a rima, o que poderia ser a triste história de um jovem negro em um reformatório transformou-se na grande virada na vida de Gerônimo, durante um evento em que a música era o tema principal de uma palestra realizada no centro de recuperação, ele conheceu Marcos, um músico e Dj da zona norte que vivia em uma comunidade que respirava a cultura dos guetos e magia das rimas e batidas do hip hop norte americano, Gerônimo conversou durante horas com Marcos e timidamente resolveu mostrar-lhe aquilo que chamava de poesia negra, em uma folha de caderno amassada entregou nas mãos de Marcos a primeira letra que tornaria-se anos mais tarde a canção que apresentaria Myster G ao mundo e o colocaria no topo das paradas musicais de todo país.

Cumpria sua pena e esforçava-se para não perder o direito a uma vez por semana encontrar-se com Marcos e passar a letras que escrevia enquanto esse colocava a batida e transformava em canção o lamento de um menino preto e pobre da periferia, seu comportamento era exemplar e sua fama aumentava lá fora através das fitas demos que Marcos espalhava pelas favelas e becos de toda cidade, houve um pedido especial com a gravação da terceira faixa, Gerônimo com o olhar marejado pediu a Marcos que entrega-se a sua mãe e irmãos uma daquelas fitas junto de um bilhete que dizia unicamente a frase: eis ai a obra que mudará para sempre nossas vidas, mãe e manos, me perdoem.

Um ano após Gerônimo, ou melhor Myster G deixou o reformatório e sua música já estava estourada nas rádios de todo país, fez um show para 30,000 pessoas em um grande estádio da cidade onde mora, e ganhou notoriedade nacional com turnês por todo o Brasil.

Ainda vive com a mãe e os irmãos na mesma periferia onde nasceu e se criou, em uma casa ampla e confortável, pode pagar os estudos dos irmãos e um tratamento digno para sua mãe, e é o idealizador de um projeto assistencial para crianças carentes de sua comunidade, onde trabalham e valorizam a arte e a cultura, sempre após as refeições que são servidas no centro MG, cada criança recebe um chocolate como sobremesa.

Essa poderia ser apenas mais uma história triste da realidade de grande maioria da juventude em nossas vilas, periferias ou favelas, ou seja, lá o nome que damos ao local onde nascemos.

O movimento Ubuntu acredita que através da arte e cultura e com ações altruístas podemos mudar a nossa realidade e a realidade daqueles que estão ao nosso redor, seja um jovem negro, branco ou de qualquer etnia.

Hoje Myster G pergunta com alegria para aquelas crianças, vocês gostam de chocolate branco ou preto? Ubuntu, sou porque nós somos.

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