Terça-feira, 19 de NOVEMBRO de 2019

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coluna do gustavo

Teoria do Urso Polar

Publicada em 16/10/2019 às 13h39| Atualizada em 06/11/2019 às 12h09

Já li crônicas e livros e assisti vídeos e palestras sobre como o mundo corporativo prejudica nosso bem-estar. Não é mais novidade que ambientes competitivos e com demandas cada vez mais complexas consomem nossa saúde. Sempre tive muito interesse em entender melhor as situações que causam nosso cansaço desmedido, falta de vontade de encarar cada segunda-feira e nos obrigam a suportar a semana sonhando com o final de expediente na sexta à noite. E muitas vezes apenas para descansar sábado e domingo.

Essa rotina nunca me agradou. Gastar toda energia em um trabalho apenas para satisfazer as necessidades financeiras e descansar durante o “tempo livre” para recomeçar tudo de novo não pode ser chamado de uma vida bem vivida. Pelo menos não para mim. E para um grande amigo meu também não. Dia desses, encerrado o expediente maçante, eu e esse amigo nos encontramos para fazer o que amigos fazem: beber chopp gelado e conversar sobre a vida, o universo e tudo mais.

- Conhece a teoria do urso polar? – perguntou meu amigo assim que sentou à mesa, mesmo atrasado, não se desculpou, estalou os dedos olhando pro garçom e fez o V de vitória.

Antes mesmo de eu responder que não conhecia a teoria ou reclamar do atraso, ele prosseguiu.

- É uma teoria que eu inventei sobre o estresse no trabalho nos dias de hoje – mas o que o urso polar tem a ver com o estresse do mundo corporativo, pensei, sem perguntar porque não tive tempo – É assim, sabe que na biologia ou na química tem algumas regras sobre passagem de energia. Por exemplo, se um ser consome outro, absorve apenas um pequeno percentual da energia daquele.

- Claro que sei, é tipo um coelho comer uma cenoura e absorver um pouco da energia dela, uma raposa comer o coelho e absorver um pouco da energia do coelho e menos ainda da cenoura e assim por diante – falei orgulhoso do meu conhecimento.

- Pois é, mas isso não interessa muito, o que interessa é o contrário – falou ele acabando com meu orgulho e me deixando confuso – da mesma forma que quanto mais no topo da cadeia alimentar menos se absorve energia da base, a transmissão de poluentes aumenta na medida que avançamos.

Eu não queria admitir minha ignorância, mas perguntei – Como assim?

- Simples, se foram utilizados poluentes no ambiente onde a cenoura cresceu, eles são passados pro coelho em maior intensidade que a energia. Se o coelho tomou água poluída, a raposa absorve muito mais dos agentes noviços da cenoura e do coelho do que a energia dos dois.

- Mas e o urso polar? E o estresse do mundo corporativo?

- Vi um estudo na internet – e se está na internet é porque é verdade – onde explicam que encontraram uma quantidade elevadíssima de metais pesados em uma amostra de sangue de um urso polar. Esses metais somente poderiam estar no sangue do urso caso ele consumisse alimentos ou água contaminados. E teriam que ser muito contaminados. O problema é que em lugar nenhum perto de onde o urso habitava tinha qualquer vestígio de intervenção humana, muito menos poluição.

Agora eu já tinha entendido a parte da poluição. O urso, no ápice da cadeia alimentar, teria absorvido os metais pesados jogados no meio ambiente pelo homem e passados de animal em animal até chegar às suas presas, sem que os níveis tenham diminuído entre um e outro, mas não sabia onde esse raciocínio nos levaria quando aplicado ao estresse do mundo corporativo.

- Simples – de novo ele com esse “simples” – Quando um chefe elogia um funcionário, fica aquela coisa boa no ar por um tempo, mas se é um feedback negativo, o empregado já se preocupa todo. Se leva uma chamada na frente de todo o setor em que trabalha, o cara nem dorme. Sente uma mistura de raiva com decepção e estresse.

- Hum... acho que entendi. E dá pra aprofundar um pouco mais isso também – tentei elevar o nível da conversa, à medida que o nível do chopp ia diminuindo dos copos – por exemplo, se o chefe fez um ou dois dias de horas extras, caso algum funcionário faça a mesma coisa que ele, por mais difícil que seja, já vai ser encarado como algo normal e não um esforço para superar uma demanda fora do comum.

Com um brinde, celebramos o avanço da teoria. Pensando bem, ela pode ser aplicada para as mais variadas situações. À medida que surgem exemplos, é mais fácil perceber seu enquadramento. Se estamos estressados com o trabalho porque o chefe não tem nenhuma noção, conversamos com alguém que nos é querido e pode dar orientações, como nossos pais, e eles já tiveram a dose deles de chefes ruins, a conversa vai girar, invariavelmente, sobre como o mundo é assim mesmo, lidar com chefe é difícil e como temos que aguentar para crescer na empresa e evoluir na carreira.

Da mesma forma, se a demanda do trabalho estiver muito puxada, conversar com um chefe que uma vez por ano faz um esforço maior para cumprir as tarefas, a orientação vai ser “vem mais cedo e sai mais tarde”, mesmo que isso implique em horas extras semanais. Quem cumpre essas horas, vai passar a achar isso normal quando tiver que cobrar um funcionário, “poluindo” ainda mais o ambiente.

Não podemos deixar essa poluição corporativa avançar sobre nós geração após geração, porque o resultado só pode ser o mesmo do urso polar: um acúmulo muito elevado de agentes nocivos a saúde. O estresse é resultado direto dessa equação. Precisamos ter nosso próprio medidor sobre o que efetivamente é trabalho e o que se tornou abusivo. Todos temos esse relógio interno, basta ouvi-lo ao invés de seguir as orientações de quem acha que quanto mais você trabalhar melhor, ou que é normal viver estressado por causa do trabalho.

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