Terça-feira, 19 de NOVEMBRO de 2019

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coluna do gustavo

Trabalhar é coisa de vagabundo

Publicada em 23/10/2019 às 17h40| Atualizada em 06/11/2019 às 12h08

Um estagiário do antigo escritório onde eu trabalhava me mandou uma
mensagem perguntando sobre minha saída de lá. Logo de cara percebi o interesse
dele em seguir meus passos, então fui muito cauteloso para não o influenciar a
tomar uma medida baseada apenas na minha opinião. Comentei sobre ele ter um
problema: ser muito inteligente. Ele percebeu que na nossa sociedade, o mundo só
é como é pela exploração do homem pelo homem, e provoquei: tu está explorando
alguém?

– Não.

– Então?

Aliviei um pouco meus antigos sócios dizendo que se ele queria ter certeza
de ser bem-sucedido financeiramente, tudo que precisava fazer era obedecer os
seus superiores. Conhecendo um pouco como os conheci, sei que eles dominam
os caminhos para a riqueza e valorizam o trabalho dos funcionários com
remuneração que lhes aparenta adequada. Mas o problema sempre estará na
exploração. E quando digo exploração, não me refiro a trabalho escravo, digo um
sócio majoritário combinar com um cliente que fará algo por X e mandar seu
estagiário fazer por X dividido por 100 ou até 1000. Impossível não se sentir
explorado. Por maior que seja o valor de X.

Ele me disse que achava os chefes muito gananciosos e que a sua ideia de
uma vida equilibrada envolvia trabalhar menos. Mesmo que isso refletisse em
receber menos. Para explicar melhor meu pensamento sobre o antigo escritório (ou
sobre qualquer outro), usei a analogia desenvolvida por um amigo paranoico meu.
Em sua defesa – da analogia, não do amigo – o fato dele ser paranoico não
significa incapacidade de falar algo interessante. Acredito que mesmo alguém
falando um monte de bobagens a vida toda, nada impede um momento de clareza
e a conscientização de algo relevante. Da mesma forma um gênio que distribui
pérolas de sabedoria pode, eventualmente, falar uma besteira. Enfim.

A paranoia do meu amigo, ou melhor, a analogia dele, começa com a
premissa de que os chefes têm como certo o fato de que quem trabalha é burro.
Porque trabalhar é fácil. Tudo que o funcionário precisa fazer é exatamente isso e
só isso; fazer. Trabalhar é coisa de vagabundo. A teoria continua com o
comparativo entre trabalhar e fazer apoio. Imagina receber um real por cada apoio
que fizer. Muita gente faria o seu “salário mínimo” mensal de apoios e depois
descansaria tomando uma cerveja e assistindo televisão. Justo. Outros farão seus
quatro ou cinco mil apoios por mês, pagarão o aluguel do apartamento, a parcela
do financiamento do carro e guardarão um pouco para viajar.

Raras exceções farão planilhas com metas diárias, mensais e anuais de
apoios, horários para descanso e cuidados com a dieta para otimizar sua
“produção”. Colherão os frutos das centenas de milhares de flexões morando numa
cobertura, dirigindo carros importados e desfrutando de uma viagem para Europa
por ano. Mas a pergunta interessante da analogia vem agora, quantas pessoas
serão milionárias, fazendo uma média de trinta e três mil, trezentos e trinta e três
virgula três, três, três, três... apoios por dia?

Isso se contarmos trinta dias do mês. Sem descanso. Considerando apenas
os vinte e dois dias úteis, são necessários mais de quarenta e cinco mil
intermináveis apoios diários apenas para alcançar um mísero milhão. Resumindo a
teoria, ninguém seria milionário dependendo somente do seu esforço. E aí que vem
a inteligência dos chefes, para se tornarem milionários, precisam que milhões de
tarefas sejam feitas e lucram em cima delas, pagando os funcionários que não
tiveram a inteligência de achar os clientes eles próprios, tendo que se submeter a
trabalhar ganhando apenas uma fração do que o trabalho realmente vale.

– Hum, interessante essa teoria. Por esse motivo que eu me sinto tão
cansado e considero ganhar mais dinheiro algo tão exaustivo, estou me esforçando
pra cumprir a meta diária dos outros - comentou.

– Isso. E por isso que os teus chefes parecem gananciosos e sempre
querendo mais, o esforço não é deles. Não vão fazer. Estão ocupados pensando e
decidindo e delegando - completei.

Ele disse que iria pensar na vida e decidiria mais para frente se sairia de lá
ou não. Me perguntou quem era o meu amigo.

– Um antigo conhecido meu. Largou a empresa onde trabalhava faz um
tempo e agora fica aí; teorizado e escrevendo as viagens dele.

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Tainá Rios

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