Sexta-feira, 20 de ABRIL de 2018

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opinião

Ritual satânico, o maior mico da história da Polícia Civil gaúcha

por Rafael Martinelli | Publicada em 08/02/2018 às 10h32| Atualizada em 12/02/2018 às 20h06

Já estão soltos o bruxo e seus discípulos envolvidos no caso do ritual satânico. Cantei essa pedra na reportagem em vídeo Percorremos os caminhos do ritual satânico. Modéstia ao inferno, perfeita é a máxima “o diabo sabe não porque é o diabo, mas porque é velho”. A experiência de mais de duas décadas de jornalismo, e as repetidas recomendações dos bancos universitários para que em nossas carreiras não protagonizássemos uma Escola de Base 2, intuía que alguma coisa estava errada. Tanto que em momento algum publicamos o nome de nenhum envolvido. Não cobrimos matérias policiais no Diário, mas quando num domingo li entrevista do delegado Moacir Firmino ao Correio de Gravataí se apresentando como “homem de Deus”, resolvi acompanhar o caso. Goste-se ou não, o estado é laico. Na segunda, fui à coletiva, em São Leopoldo.

Logo após a entrevista em que Firmino atribuiu a uma revelação divina a solução da morte e esquartejamento de duas crianças em um suposto sacrifício religioso, comentei com colegas jornalistas que poderíamos estar diante do maior mico da história da Polícia Civil gaúcha.

– Achei que ele ia te prender – brincou uma colega, sobre o momento em que frente a perguntas óbvias que fiz o delegado bateu com o pesado inquérito sobre a mesa e me repreendeu:

– Quem sabe o senhor vem aqui conduzir as investigações? Se não acreditas em Deus, eu acredito. Louve a Deus que ele vai lhe mostrar o caminho – foram, textualmente, as palavras do veterano policial, ex-político e evangélico fervososo, que tratava seus supostos informantes como “profetas”.

Como ativista da causa animal, já fiz protesto quase pelado no Mercado Público de Porto Alegre, quando a Assembleia Legislativa votava projeto de Regina Becker para proibir rituais religiosos com sacrifício de animais – prática que considero cruel e anacrônica. Nas redes sociais, virei alvo de batuqueiros à época. Considero muitas bruxarias vigarice para tomar dinheiro de pessoas gananciosas ou desesperadas. Mas para professar gostos pessoais e crenças, que subamos em um caixote. Só não combina com técnica e profissionalismo. E foi o que lamentavelmente aconteceu com alguns colegas da imprensa, por focas ou espertalhões à caça de audiência e likes, e aparentemente também se atrapalhou o delegado, ao apresentar como base para prisão duas testemunhas e uma capa com a qual o bruxo usaria durante rituais – e que é possível comprar até na seção de fantasias das Lojas Americanas.

A capa foi periciada? Há DNA das crianças nela? Foi usado luminol no tal templo satânico para detectar vestígios de sangue? As perguntas básicas irritaram o delegado, que não apresentou nenhum indício – provas muito menos – da culpa dos “sete discípulos de satanás”. Mas Moacir Firmino é só o personagem mais folclórico do caso. Decidindo contra parecer do Ministério Público, que não identificou elementos para encarceramento de pessoas que não tinham antecedentes, ou tinham ocorrências de menor potencial ofentivo, um juiz decretou a prisão preventiva de, pelo menos até agora, sete inocentes.

Um mês depois, as testemunhas-profetas deram pra trás, uma pessoa foi presa por falso testemunho e uma adolescente alega ter sido coagida a fazer as acusações, o que já rende uma investigação pela Corregedoria.

O mal-estar já pode ser sentido no dia da fantástica coletiva, quando pouco mais de uma hora depois, o chefe da Polícia Civil gaúcha chamou o delegado e, no retorno do titular das férias, pediu uma investigação minuciosa do caso – certamente preocupado com a evidente falta de provas, com uma mancha no trabalho cada vez mais técnico de nossas polícias e, sem dúvida nenhuma, com o tamanho da indenização que o Estado pode ter que desembolsar para os cinco presos e dois foragidos que tiveram as caras estampadas aqui e no exterior até.

Indenização que vai virar uma conta que eu, você e cada contribuinte pagará: mais dia, menos dia.

Graças ao Deus do delegado, ao Deus de qualquer um, ou mesmo que não exista Deus, os suspeitos vivem em um Brasil – ainda – sem pena de morte e não foram mortos no presídio, o que até não deixa de ser surpreendente nesses dias em que a vida pouco vale e presos e baratas assistem ao noticiário dentro das celas.

Mas, inocentes até prova em contrário, o bruxo e seus fanáticos possivelmente seguirão suas vidas sob o tacão da condenação pelo Grande Tribunal das Redes Sociais, onde já eram tecladas sentenças e penas como “capa, esquarteja, queima, mata”.

E é previsível que, pela temporada condenatória que atravessamos, de fardados e togados das altas rodas aos botecos, talvez não falte, por já ter firmado convicção, algum inconformado com a soltura a lamentar:

 – Ah, se fosse o Moro!

Assista a reportagem onde já contestávamos as investigações

 

 

 

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