Sabado, 15 de DEZEMBRO de 2018

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violência no esporte

O soco que mudou a vida do ex-zagueiro Régis

por Silvestre Silva Santos | Edição de imagens: Guilherme Klamt | Publicada em 02/04/2018 às 15h16| Atualizada em 05/04/2018 às 16h56

No próximo mês de novembro se completam 19 anos desde que um fato ocorrido dentro das quatro linhas de um campo de futebol chamou a atenção do meio esportivo do país: a agressão praticada por um jogador a um colega de profissão, atitude que deixou a vítima em coma e, atualmente, com sequelas que ainda o impedem de levar uma vida normal.

O agressor foi Darzone, na época jogador do Esporte Clube Santo Ângelo. A vítima foi Régis Tadeu da Rosa Júnior, que defendia o grená da Sociedade Esportiva e Recreativa Caxias, da Serra Gaúcha. O jogo era na cidade das Missões e valia classificação para as semifinais da Copa RS. Os dois times precisavam ganhar.

Numa cobrança de escanteio, já nos minutos da prorrogação do segundo tempo, os dois se encontraram na área do Santo Ângelo. Um para fazer o gol, o outro para evitar o gol. Bola alçada à área, os dois atletas se movimentam. Só que Darzone não visou a bola, e desferiu um violento soco que atingiu Régis na cabeça.

O jogador, nascido em Porto Alegre e que mora em Gravataí com a família deste muito pequeno, caiu inconsciente e ainda no gramado passou a ter convulsões. Ficou cerca de 20 dias em coma, primeiro em Santo Ângelo e depois em Caxias. Hoje ele conta que não lembra sequer da viagem para as Missões, muito menos do lance que o vitimou.

 

Régis e Messi

O que Régis sabe é o que viu em vídeo. E não tem dúvida: foi uma agressão intencional. Com ele concordou a Justiça, tanto que condenou o autor do soco por lesão corporal grave e ao pagamento de indenização, juntamente com o clube que o empregava à época.

Régis recebeu o Diário ao lado de Messi, um cachorro de estimação cujo nome... Bom, deixa de lado! Com ele, a esposa Cíntia de Almeida Izolan, uma designer gráfica com quem está casado desde 2013. A casa fica em uma rua tranquila no bairro Morada do Sobrado.

Tão tranquila quanto é a serenidade com que o ex-atleta fala da vida, dos seus problemas, das sequelas, das dificuldades financeiras. Tudo mudou nos planos de Régis e, por extensão, na vida da sua família. Aos 21 anos, quando aconteceu o incidente, ele ainda estava se firmando como profissional.

Mas já tinha planos de solidificar a carreira e, quem sabe, em breve ir para algum time do Japão, onde um amigo já estava jogando e com quem conversava sobre a possibilidade de transferência. E Régis despontava nas mãos de alguém que, hoje, é muito forte, renomado, reconhecido e quase uma unanimidade no futebol nacional.

Afinal, foi o técnico Tite, que comandava a SER Caxias naquela época, quem dava oportunidades escalando Régis no time principal. O mesmo Tite com quem o Régis pai mantem uma relação bastante próxima, e o mesmo Tite que prestou um depoimento ao Trabalho de Conclusão de Curso quando o Régis ex-jogador concluía sua faculdade de Educação Física na Ulbra.

 

Os problemas

E hoje, Régis, o que esperar do futuro próximo?

--- Só quero que seja cumprida a Justiça, que paguem aquilo que me devem! --- afirma um Régis que enfrenta lapsos de memória, diagnosticado com epilepsia, e que dissimula bem a dificuldade que tem até para andar, consequência do traumatismo craniano que resultaram em sequelas nos membros do lado direito do corpo.

A pensão que recebe do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) não é suficiente para custear as despesas da casa. Para isso, conta com om trabalho de designer gráfico da esposa Cíntia de Almeida Izolan, e com o apoio incondicional da família, principalmente do pai, de quem herdou o nome.

Os valores que tem para receber, garante, seriam suficientes para resolver os problemas que enfrenta, especialmente financeiros. Só que as ações movidas contra as duas equipes, embora a Justiça tenha dado ganho de causa ao ex-atleta, estão em fase de execução de sentença e sem prazo para o efetivo pagamento.

--- Que ele vai receber, vai! Só não se sabe quando --- disse o advogado Gilson Monego, que representa Régis nas barras dos tribunais.

 

Sem dinheiro

A explicação para a não quitação da sentença, no caso da SER Caxias e do Santo Ângelo é exatamente a falta de dinheiro. Os dois clubes alegam que não dispõem de recursos em caixa para fazer frente às indenizações sentenciadas. Um, o SER Caxias, condenado em ação trabalhista. O Santo Ângelo por danos morais e lucros cessantes.

--- Se times como o Inter e Grêmio, para ter como exemplo equipes mais próximas de nós e conhecidas de todos, têm enormes dificuldades financeiras, imagina qual a situação dos clube do interior que sofrem com falta de patrocínio, quase não têm associados... --- comenta o advogado.

 

Faculdade

Depois do incidente e iniciada a recuperação que incluiu muita fisioterapia e até sessões de fonoaudiologia, Régis dedicou aos exercícios físicos. Nutria o firme propósito de voltar aos gramados, e voltar bem fisicamente, para não decepcionar. Até frequentou estádios e casamatas, mas não conseguiu realizar sua vontade.

Dedicou-se, então, ao curso de Educação Física que concluiu em 2012, na Universidade Luterana do Brasil. Com o canudo em mãos chegou a trabalhar em algumas academias da região. As dificuldades surgiram por causa do lapso de memória, condicionamento psicológico e até os problemas físicos.
Não pode continuar.

 

Régis e a esposa Cíntia: ele só quer que a Justiça seja cumprida

 

Aos 39 anos – vai completar 40 no dia 30 de agosto próximo – Régis Júnior não quer muita coisa. Só que seja cumprido o que a Justiça determinou. Que é a forma que vislumbra para deixar de ser dependente financeiramente da família e da esposa, e para poder traçar planos para o futuro. Como ter filhos.

--- Até agora não planejamos. A situação (financeira) não é nada boa! --- justifica.

 

O QUE ACONTECEU

 

Régis, então com 21 anos, foi agredido quase ao final da partida – 48 minutos do segundo tempo – que a SER Caxias e Santo Ângelo disputavam na cidade da região das Missões pela Copa Mais Fácil, a Copa RS, da Federação Gaúcha de Futebol (FGF). Era um sábado, 13 de novembro de 1999.

A partida estava empatada em um gol, e as duas equipes precisavam da vitória para seguir adiante na Copinha, como o certame também era chamado. Uma bola foi levantada para a área do Caxias, o goleiro saiu e fez a defesa.

Porém, fora do lance, Darzone avançou por trás de Régis e lhe atingiu com um soco. Régis caiu e passou a sofrer convulsões. Os próprios jogadores do Caxias foram buscar a maca, que demorava a chegar.

Régis foi levado ao Hospital Santo Ângelo onde ficou internado já em estado de coma. Depois, foi removido ao Hospital Medianeira, de Caxias do Sul com diagnóstico de traumatismo craniano, acompanhado de lesões hemorrágicas e hematomas.

 

Para saber

 

A posição de origem de Régis era centro-médio, como os volantes eram chamados na época. Para a partida contra o Santo Ângelo o técnico Tite (hoje comandante da Seleção Brasileira de Futebol) havia escalado o atleta na posição de zagueiro central.

- - - Por isso ele foi para a área do Santo Ângelo, na cobrança de escanteio, buscando o gol que classificaria a SER Caxias.

 

: A posição de origem de Darzone era a defesa e, no jogo contra o Caxias o técnico do Santo Ângelo escalou o jogador como atacante, pelas suas habilidades como velocidade e força física.

- - - Por ser defensor de origem, estava na área da sua equipe, o Santo Ângelo, na cobrança de escanteio, buscando evitar o gol que classificaria o time da Serra.

 

O SUSTO

 

1

Três anos depois da agressão que lhe deixou com traumas físicos e neurológicos, Régis passou a enfrentar mais uma sequela tardia. Sem motivo aparente sofreu uma queda quando estava em casa.

 

2

Depois de uma série de exames os médicos diagnosticaram a epilepsia. Até hoje o ex-jogador passou a tomar remédios diários e, hoje, o efeito dos medicamentos tornaram cada vez mais espaçadas as crises da doença.

 

NA JUSTIÇA

 

No ano de 2007 a Justiça condenou Darzone – que respondeu à ação criminal por lesões corporais graves – a dois anos de prisão. Ele cumpriu um terço da pena em regime aberto e, o restante, em liberdade condicional.

Em 2012, a Justiça Cível deu ganho de causa a Régis em processo movido buscando ressarcimento por lucros cessantes e danos morais, e obrigou Santo Ângelo a indenizá-lo, o que ainda não ocorreu.

De acordo com o advogado Gilson Monego, de Gravataí, são duas as ações judiciais em favor do seu cliente, o ex-jogador Régis Júnior. Uma delas, trabalhista, impetrada com a Sociedade Esportiva e Recreativa Caxias, e a outra, cível, pleiteia indenização pelo Santo Ângelo e o jogador Darzone.

Ambas as ações foram favoráveis aos pleitos de Régis e, de acordo com seu procurador, a situação atual é de execução de sentença. Ambos os clubes, entretanto, alegam falta de recursos para cumprir com as determinações judiciais.

No caso da SER Caxias houve decisão judicial de reunir numa mesma ação vários postulantes a ressarcimentos trabalhistas. Isto significa que, à medida em que ingressarem recursos, estes deverão ser rateados entre todos os quem titulam a causa, de forma equânime.

Já no caso do Santo Ângelo chegou a ser levado a leilão um terreno do clube, sem que tenham aparecido interessados em arrematar o bem. O terreno em questão é parte da área sobre a qual se encontra o estádio de futebol da cidade.

O restante do imóvel tem outros proprietários, majoritariamente a Prefeitura de Santo Ângelo, razão pela qual tanto o advogado Gilson Monego quanto o ex-jogador e sua esposa não acreditam em solução a curto prazo.

--- Quem é que vai comprar, mesmo que seja em leilão, um terreno que é parte de um estádio? Vai fazer o que, demolir? De que jeito? --- questionou a esposa Cíntia.

 

NA FACULDADE

 

1

Régis Tadeu da Rosa Júnior – simplesmente Júnior no ambiente familiar e chamado de Régis entre amigos e no meio esportivo – ingressou na Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) de Canoas em 2003, para cursar Educação Física.

 

2

Em 2012, ao final do curso e já no campus da Ulbra em Gravataí, Régis apresentou seu Trabalho de Conclusão do Curso (TCC) com o tema ‘A violência no esporte: Um relato de experiência.

 

3

A tese de conclusão teve participação especial de Adenor Leonardo Bacchi, o técnico multi-campeão Tite, à época treinador do Corinthians de São Paulo. Foi ele, Tite, que em 1999 deu as primeiras chances para Régis como jogador da SER Caxias.

 

O LIVRO

Segundo o pai, Regis Thadeu da Rosa, desde de o ano passado está sendo produzido um livro com a história do Regis Junior. O trabalho conta com o depoimento de várias pessoas, inclusive do técnico Tite que, na época em que aconteceu o incidente em Santo Ângelo, era o treinador do Caxias.

--- Pretendemos lançar esse livro, que está sendo escrito pelo nosso amigo Nando Rocha, em 2019, com a presença do Tite. Meu filho é exemplo em todos os sentidos, principalmente na capacidade de perdoar --- destaca o Régis pai.

 

Confira no vídeo abaixo a conversa do Seguinte:, site parceiro do DV com Régis Júnior e a esposa, Cíntia.

 

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