Segunda, 15 de OUTUBRO de 2018

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opinião

Um dos memes bizarros que viralizaram no Dia das Mães

OPINIÃO | A mãe PM acertou, e você?

por Rafael Martinelli | Publicada em 15/05/2018 às 11h26| Atualizada em 18/05/2018 às 10h13

O grande símbolo do Dia das Mães de 2018, pelo menos no Grande Tribunal das Redes Sociais, foi a policial militar que reagiu a um assalto na porta da escola da filha, em São Paulo, baleando o assaltante que depois entrou para a estatística dos mortos na Guerra do Brasil.

vídeo, que ganhou o mundo, já foi assistido – e comentado – por milhões de pessoas.

Posso não estar certo, mas nos estilhaços do caso algo parece estar errado.

Não na técnica, já que para especialistas, ouvidos do Diário à GloboNews, a ação da PM, mesmo que de risco, aparenta ter sido correta. Agiu em legítima defesa, dentro de relativos padrões de segurança e, possivelmente, apavorada por mortes de colegas depois de identificados por bandidos como agentes de segurança.

– Para o cidadão comum, a orientação em situações semelhantes é não reagir. Já policiais são treinados para, ao reagir, não colocar em risco a vida dos outros e a própria vida – explica o coronel Flávio Lopes, 35 anos de Brigada Militar e quatro comandando a secretaria de segurança pública de Gravataí.

O experiente brigadiano assistiu ao vídeo uma série de vezes e observa movimentos que mostram que, mesmo com instantes para decidir, a policial seguiu protocolos de segurança.

– A PM estava a menos de cinco metros, em uma distância onde era possível atirar sem preparar a mira. É o chamado tiro instintivo. Ela afasta outra mãe que estava com uma criança, permanece sozinha na linha de tiro e, é possível ver nas imagens, o revólver 38 do delinquente não estava engatilhado, o que eliminava o risco de um disparo espasmódico ao ser atingido. Após dominá-lo, a policial também agiu corretamente ao chamar o socorro.

Enfim, pelos elementos que se tem até o momento, a policial agiu no cumprimento do dever e a morte do assaltante foi uma consequência. Mas, ‘que tiro foi esse?’ de reações nas redes sociais, com posts, memes e gifs de comemoração?

– Coisas boas acontecem infinitas vezes mais do que coisas ruins. Alguém nasce, você respira. Mas isso, que é a realidade cotidiana de 8 bilhões de pessoas, não é notícia. Vivemos em uma sociedade com foco no sofrimento e onde tudo parece voltado a ganhar ou perder bens materiais, o que somado a desigualdade social leva ao aumento de todos os tipos de ações e reações violentas, na vida real e nas redes sociais – observa o psicólogo Gerson Jung.

Inescrupulosos, políticos incentivam o show de horrores buscando cliques e votos. Ou o governador de São Paulo, candidato à reeleição, não encenou uma bizarra e demagógica peça de campanha ao expor, e homenagear a PM no Dia das Mães, coisa que não fez em outros casos análogos?

Amanhã provavelmente algum vereador apresenta uma moção de parabenização.

É a retroalimentação do ódio e da intolerância, uma cultura de ‘bandido bom é bandido morto’ que tem mais a ver com vingança do que com justiça, mesmo que no caso em análise se trate de um covarde cujas incertas intenções ficaram no asfalto.

– Não é fácil determinar se, ao fim dos acontecimentos, houve ou não justiça. Seria preciso analisar toda a vida pregressa e as oportunidades que teve o rapaz que restou morto – observa em off um dos mais experientes juízes gaúchos na ativa.

– Como o Brasil tem o maior número absoluto de homicídios no mundo, mais de 60 mil ao ano, é compreensível que a imensa maioria da população festeje a morte de um bandido violento, o que é reforçado pela simbologia do fato de a autora ser PM e mãe, que, no momento da ação, aguardava o início da homenagem ao dia das mães feita pela escola da filha. Na moral de senso comum, pessoas ‘ruins’ merecem punição e, nessa visão, o assaltante teve o que mereceu, o que é comprovado lendo os comentários de qualquer portal que tenha noticiado o fato – analisa o sociólogo Fernando de Gonçalves.

– Mas uma homenagem/comício pode levar a que cidadãos sejam tentados a se tornar justiceiros, com consequências potencialmente trágicas para inocentes que podem ser confundidos com bandidos e, também, para os próprios aspirantes a heróis, que nem de longe têm o preparo e o autocontrole demonstrados pela mãe policial – observa, alertando também para os riscos do estimulo à "letalidade policial":

– A polícia brasileira mata demais, muitas vezes com os famosos ‘autos de resistência’ forjados, o que obviamente não foi caso de sábado, onde a policial foi irretocável. Mas, entre 2013 a 2017, o número de mortos pela polícia brasileira passou de 2202 para 5012 casos, ou seja, mais do que dobrou em apenas quatro anos. Nos Estados Unidos, que têm uma população maior do que a nossa e é visto como exemplo a ser seguido em questões de lei e ordem, a polícia mata pouco mais de 300 indivíduos a cada ano – compara, e conclui:

– Mesmo com o aumento brutal do número de mortos pela polícia brasileira nesses quatro anos, as taxas de violência não diminuíram, inclusive aumentaram levemente. Ou seja, a solução popular do 'bandido bom é bandido morto' não está funcionando, muito pelo contrário.

Sintoma do ‘justiçamento.com.br’ dos tempos atuais é que nesta segunda, um dia depois de mais um ‘preto, pobre e do crime’ ter sido enterrado aos 21 anos, pesquisa CNT mostra que quase nove entre cada dez pessoas consideram o judiciário brasileiro pouco, ou nada confiável. Outros 90% não acreditam que a justiça aja igual para todos. Em resumo: ninguém mais parece acreditar no devido processo legal e de direito.

A CNT não perguntou sobre Sérgio Moro, mas pesquisas anteriores permitem a leitura de que o juiz é visto como um alienígena num sistema desacreditado – com Supremo&tudo. No imaginário popular, um salvador da pátria, algo como um justiceiro dos poderosos.

Fuzilem-me, mas não comemoro morte. Entendo que a PM Kátia Sastre (identifico, agora que já atiraram o nome da cabo ao público, colocando-a, e também a outros policiais, em risco) agiu certo, dentro dos limites da lei. Erradas estão as verdadeiras milícias de políticos e ‘cidadãos de bem’ que regozijam com a tragédia de uma morte testemunhada por crianças.

É a humanidade ferida.

Tainá Rios

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