Sabado, 07 de DEZEMBRO de 2019

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de Brasília

Jones Martins, na Câmara Federal em Brasília

ENTREVISTÃO | Jones, por que salvar Temer?

por Rafael Martinelli | Publicada em 07/08/2017 às 22h12| Atualizada em 10/08/2017 às 16h59

Sentado na cabeceira da mesa, Michel Temer chamou Jones Martins, que em pé conversava com outros dos poucos convidados ao concorrido jantar em Brasília, na véspera da votação que salvou o mandato do eleito para ser vice de Dilma Rousseff em 2014 e empossado um ano e oito meses depois como presidente, em uma cerimônia de 11 minutos, três horas após o golpeachment parlamentar.

– Jones, gostaria de poder abrir uma exceção e te ter lá. Mas, mesmo não votando, quero tua ajuda – disse, caracteristicamente esfregando uma mão na outra, ao explicar o pedido que fez naquela noite para que ministros reassumissem na Câmara, o que obrigaria o deputado federal de Gravataí a devolver a cadeira para Osmar Terra.

Ainda boquiaberto com a gentileza do ali chefe da Nação, de comunicá-lo pessoalmente, Jones foi convidado pelo líder do PMDB, Baleia Rossi, ao lado anfitrião e vice-presidente da Câmara Fábio Ramalho, para acompanhá-los nas articulações de plenário e na contagem de apoios, medida quase que minuto a minuto.

Tanto que no dia da sessão onde, pela primeira vez na história, poderia ser autorizada a investigação de um presidente por crime durante o mandato, Jones manteve viva uma característica de um de seus padrinhos políticos, Eliseu Padilha: arriscou ao Diário o placar de que 260 votos salvariam o mandato de Temer.

Foram 263, certamente com alguma inspiração no chefe da Casa Civil e número 1 de Temer.

Muitos contados ao vivo por Jones, em frente aos microfones, como mostrava a Globo em rede nacional. O que rendeu uma brincadeira de “te vi na TV!” do próprio presidente, no encontro que tiveram na noite da quarta da vitória, no Palácio do Jaburu.

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– Michel é o cara. Um estadista que a história fará justiça – elogia Jones (sem medo de ter uma opinião diferente dos 70% descontentes que aparecem nas pesquisas), na entrevista de quase duas horas ao Diário, onde a pauta era a salvação de Michel Temer na Presidência da República.

Presidente que Jones, por mais de uma vez, chama pelo primeiro nome, Michel.

Confira.

 

Diário – Por que livrar Temer?

Jones – Não se tratar da livrar Temer. O processo foi suspenso e, quando o presidente encerrar o mandato, será julgado como um cidadão comum. Mas neste momento, não é um processo qualquer, é um processo contra o presidente da República.

 

Diário – Se o Estadão falava em responsabilidade, editoriais da Globo e da Folha de S. Paulo, no dia seguinte à votação, alertavam para um sentimento nacional de impunidade, de que não somos todos iguais perante a lei e denunciavam um ‘golpe na Lava Jato’. Estancou a sangria, como queria o então ministro do Planejamento, senador Romero Jucá?

Jones – É uma denúncia mal feita, não sei se alguma comarca do interior do Brasil aceitaria...

 

Diário – O juiz Sérgio Moro aceitaria?

Jones – Não sei, talvez, mas é um julgamento de um presidente da República, é preciso pensar no momento do país. Na hora adequada, ele será processado. Qual o fundamento da denúncia? Uma gravação apresentada numa proposta de delação feita para livrar a cara de um bandido atolado até o pescoço em crimes? Um bandido que oferece a cabeça do presidente, sai clandestinamente do país e 15, 20 dias depois a Procuradoria Geral da República apresenta denúncia. Não tenho dúvidas da absolvição, porque o que vale num julgamento é o que está na denúncia, o que está nos autos, escrito, não o que falam todo dia o William Bonner, o Gerson Camarotti ou a Cristina Lobo.

 

Diário – Mas e o encontro com Joesley Batista altas horas de um domingo, pela porta dos fundos, fora da agenda? E Rodrigo Rocha Loures, íntimo do presidente, correndo com uma mala de dinheiro pela rua?

Jones – Não há nexo causal de que a mala chegaria às mãos do presidente. Não há prova disso. A Polícia Federal fez campana na casa de Loures, chipou o dinheiro, e não chegou em Michel. É uma cena horrível Loures correndo com a mala, mas essa é uma questão que ele tem que responder. Não há provas e nem indícios de que o dinheiro seria para o presidente. Sobre Joesley, se havia tanta confianças, tanta intimidade entre ele e o presidente, como tentam imputar, por que não fizeram de forma mais direta esses tais negócios escusos? A gravação é só “arrã”, “é”, “bom”... Joesley fala de uma pendência no Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais), de Gedel (Vieira Lima, ex-ministro), de Rodrigo (Rocha Loures), mas não há como tirar dali que tenha sido combinada uma estratégia. Falam da economia, de assuntos gerais. A filmagem de Rocha Loures materializa um crime que ele comete, não o presidente.

 

Diário – A maioria dos deputados pró-Temer justificaram o voto falando na necessidade de manter a “estabilidade do país”. Os números, porém, mostram que o Brasil parece mais o paciente à beira da morte onde o boletim médico diz “estável”. Conforme levantamento do The Intercept, além da aprovação de apenas 5% de um presidente eleito para ser vice, há 13,5 milhões de desempregados, a dívida pública é de R$ 3,3 trilhões, a perspectiva de crescimento do PIB é de apenas 0,34 para 2017, o aumento do PIS/Cofins está fazendo a gasolina subir 8% e o governo está enfrentando dificuldades para cumprir a meta fiscal, que é o centro do discurso.

Jones – O presidente Temer assumiu o Brasil num estado falimentar, quebrado, com déficit fiscal enorme, inflação de dois dígitos, juros com viés de alta, 14 milhões de desempregados, em depressão econômica. Em um ano, fez uma reforma trabalhista, que moderniza as leis do trabalho sem tirar nenhum direito do trabalhador, e apresentou uma reforma da previdência que mexe com privilégios, principalmente com altos salários. Não acha justo todos terem um teto de R$ 5,5 mil, incluído juízes e políticos? O presidente botou o dedo na ferida e, muito por isso, pela reação das corporações, está sob tanto ataque.

A inflação foi controlada, os juros baixaram, o Brasil voltou a gerar empregos, tínhamos um bom sinal de 65 mil vagas criada em abril, o país voltavam aos trilhos, e aí em maio veio a delação da JBS. O bandido, que incrivelmente sempre protegeu o Lula, e recebeu bilhões do BNDES nos governos do PT, entregou um suposto crime que o Michel iria cometer. Não dá para ser ingênuo. Esse cara da JBS, intimamente ligado ao PT, para se livrar de crimes propõe à PGR entregar a cabeça do presidente. Em 15 dias, no afogadilho, o procurador geral (Rodrigo Janot) aceita a delação, prepara um flagrante furado, arma a denúncia e vai para a Globo.

Não dá para esquecer que Lauro Jardim deu a notícia no site do Globo às 17h de um dia, revelando que o presidente tinha sido grampeado negociando com o empresário da JBS a compra do silêncio do (Eduardo) Cunha, e o mundo inteiro, por 24 horas, só tinha aquela versão e deu a queda do presidente como certa. Quando apareceu a gravação, a montanha pariu um rato. Foi uma grande armação de Joesley para se livrar dos crimes e proteger Lula, com o amém da PGR. Isso desestabilizou o governo. Se a reforma da previdência já tivesse sido aprovada, cresceríamos de 3 a 4% neste ano.

 

Diário – Há chance de aprovar a reforma da previdência que o governo quer? Foram 263 ‘sim’ a Temer. Para passar a emenda constitucional são necessários 308.

Jones – Não sei se há força política neste momento. Internamente já se fala em uma reforma mais amena, mexendo apenas na idade (acabando com a aposentadoria por tempo de contribuição e exigindo a idade mínima de 65 anos para homens e 62 para mulheres que desejam se aposentar — as mesmas idades que serão exigidas no regime geral do INSS). Mas alguma reforma na previdência é necessária. O ideal seria um grande pacto nacional, envolvendo todos partidos.

 

Diário – É fake news que PT e PSDB apenas fingiram querer a derrubada de Temer, já que para os dois partidos, de olho em 2020, é melhor o governo pagar o preço do ajuste fiscal, fazer as reformas e sangrar com as denúncias de corrupção?

Jones – Não é fake news, é verdade. É a hipocrisia que faz parte do jogo da política. Você ouve isso em off dos deputados, de senadores. Que é melhor deixar Temer sangrando e, melhor ainda, se ele conseguir aprovar a reforma da previdência. Ou achas que o próximo presidente, seja de que partido for, vai revogar a reforma? Há tempos que mexer na previdência já estava na boca de Lula e de Dilma, para citar duas referências da oposição. O mercado derrubou Dilma porque viu que ela não tinha força política para fazer as reformas e o país iria quebrar. Acredito que alguma reforma será feita na previdência, infelizmente, pelas circunstâncias, talvez seja uma reforma meia boca.

 

Diário – Como os R$ 66 milhões para o hospital do câncer são de emendas coletivas da bancada gaúcha, você está fora da lista dos deputados que receberam R$ 17 bilhões em emendas. Essa gastança não atinge o discurso de austeridade do governo?

Jones – Governo e oposição receberam emendas. São as chamadas emendas impositivas, que o governo tem obrigação de cumprir em algum momento.

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Diário – A vitória de Temer foi uma aula de política, ou um exemplo institucionalizado de fisiologismo e compra de votos, ou as duas coisas são indissociáveis na política brasileira?

Jones – A liberação de emendas é prática antiga, e agora há as emendas impositivas. E aí você tem de um lado o deputado que é pressionado por suas bases para trazer recursos, garantir obras, e de outro a Presidência da República que controla o orçamento. Para mim, a solução é o parlamentarismo. Não se pode tirar presidentes a toda hora, já um primeiro ministro pode ser destituído com menos traumas e é vida que segue. Nossa Constituição tem um viés parlamentarista, mas nosso regime é presidencialista. E com o dinamismo das redes sociais, a cada semana se pede uma cabeça.

O ideal seria refazer a Constituição com uma assembleia nacional constituinte, onde os congressistas seriam eleitos apenas para isso, não poderiam buscar a reeleição. Seria uma oportunidade de reunirmos notáveis no Congresso. E com quórum mínimo de 257 votos se aprovariam reformas previdenciárias, trabalhistas, tributária, política e administrativa.

 

Diário – Nesse House of Cards calango, os próximos episódios podem trazer novas denúncias contra Temer antes do procurador geral da República Rodrigo Janot encerrar o mandato em 17 de setembro.

Jones – Pela lógica, a principal denúncia, aquela que se presume tenha provas mais robustas, é sempre a primeira. Se há mais denúncias, por que o procurador não juntou tudo? Política? Se irresponsavelmente apresentar novas ações, Janot não fará o presidente sangrar sozinho, porque o Brasil sangrará junto, porque a economia para, o país para...

Não se protegeu Michel, que vai se defender quando estiver afastado da Presidência da República. Evitou-se o pior para o país. A Constituição, quando diz que a Câmara dos Deputados decide, e para não banalizar fixa em 342 os votos necessários, autoriza uma decisão política. Ou o Supremo Tribunal Federal decidiria. Ao prever um juízo político, a Constituição permite que os deputados, que são a representação dos eleitores de todo país, avaliem se vale a pena tirar um presidente, que impacto isso tem na economia, nas instituições e na democracia.

Em resumo, primeiro considero a petição da PGR fraca. Atendeu apenas a interesses políticos, corporativos e ao bandido Wesley Batista. Segundo, seria desastroso para o país afastar mais um presidente. E essa conta quem paga é o mais pobre, porque a classe média e os ricos conseguem ir levando um, dois, três anos.

Enfim, não há salvador da pátria.

 

Diário – A Globo apostou contra o governo e ‘perdeu’ pela primeira vez. Conte sobre os bastidores.

Jones – Pela primeira vez a Globo sofreu um enfrentamento dentro da democracia. Michel continua no cargo, é só o que gostaria de dizer.

 

Diário – O PSDB ficou dividido no apoio a Temer. Isso complica uma parceria em 2020?

Jones – Eu defendo uma candidatura própria.

 

Diário – Temer?

Jones – Não sei, mas a campanha contra o presidente é muito forte. Nem sei se ele quer. Mas ele é uma pessoa com uma capacidade de trabalho, articulação com o Congresso e uma paciência que nunca vi. Ele pensa no Brasil, não na próxima eleição. Michel é um estadista. Prova do compromisso dele com o país é que arriscou a popularidade para liderar reforças há anos adiadas por governos de diferentes partidos.

A melhor política social é ter um país sustentável. Sem dinheiro, não se atende área social. Ou se vive de voos de galinha, como nos governos Lula e Dilma, onde o consumo foi incentivado sem nenhuma sustentabilidade. O país cresceu, mas era um voo de galinha, caiu e quebrou logo adiante. Em algum momento a população terá compreensão da urgência e necessidade do que foi feito. Não poderia ser outro, que não a falência, o caminho do Brasil após um ciclo de populismo, onde se falava em dar tudo a todos, com pacotes de bondades, mas sem ter de onde tirar o dinheiro. O governo Michel Temer devolveu a credibilidade ao Brasil, os mercados atestam isso.

Percebo que fora das redes sociais há apoio às medidas do governo. Empresários e trabalhadores sabem que como estava o país não podia ficar. Era preciso adequar à realidade. Infelizmente, as fake news tem um poder de multiplicação maior. Um exemplo de notícia falsa é dizer que as reformas trabalhista e previdenciária retiram direitos. É mentira. Bom é que, na vida real, o país avança. Esse investimento que a GM fez em Gravataí é simbólico, porque foi uma escolha pelo Brasil, não pelo México.

 

Diário – Bônus e ônus.

1. O discurso que fizeste, no dia em que explodiu a delação da JBS, defendendo o presidente dos pedidos de renúncia, e que rendeu uma ligação do próprio Temer.

2. A superexposição que tiveste ao se colocar como candidato do Palácio do Planalto a relator do processo na Comissão de Constituição e Justiça, aparecendo no Jornal Nacional para explicar doação de caixa 1 de Temer para a campanha de 2014.

3. A articulação que fizeste em plenário em nome do governo no dia da votação.

Esses três movimentos certamente o tatuaram como um deputado fiel a Temer, ao partido e, principalmente, a um dos teus padrinhos políticos, o ministro chefe da Casa Civil e número 1 do governo, Eliseu Padilha. Mas as pesquisas mostram que o eleitor queria que o presidente fosse processado agora. O Ibope divulgou que 79% achavam que o deputado que ficasse ao lado do presidente também era corrupto. Não temes pela tua eleição a deputado federal em 2018, e à Prefeitura em 2020?

Jones – O ano que vem será de uma eleição duríssima para todos. As pessoas estão com uma visão de criminalização da política. É legítimo, e até razoável, pela influência do bilhão de informações negativas. Mas daí é justo culpar o governo Temer e o presidente por tudo que está aí?

Já eu, graças a Deus não estou em lista nenhuma, não respondo por nada e vou para a eleição de cabeça erguida. Qualquer um pode discordar de minhas opiniões, mas ninguém pode me acusar de corrupção. Sou a favor de que se passe o país a limpo, mas dentro da lei e sem generalizações perigosas para a democracia. É um momento de muita responsabilidade, porque se você fizer uma pesquisa perguntando se querem que acabe com o PSOL, com o PT, com o PMDB, com o PSDB, que se feche o Congresso, é possível da maioria querer.

O projeto que eu defendo, nacionalmente e aqui, é o de respeito à coisa pública, sem usar do populismo para enganar as pessoas.

 

Tainá Rios

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