Terça-feira, 11 de DEZEMBRO de 2018

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OPINIÃO | Mário Peres, entre a polícia, a câmara e a facção

por Rafael Martinelli | Publicada em 17/08/2018 às 11h15| Atualizada em 20/08/2018 às 12h58

Não é nada confortável a situação do vereador de Gravataí Mário Peres (PSDB), que confirmou com exclusividade para o Seguinte, site parceiro do Diário, alugar para um vizinho o prédio na Vila Rica onde a polícia civil gaúcha achou 721 quilos de maconha, a maior apreensão da droga no ano.

– Agora o vereador é alvo da polícia ou da facção – é o comentário mais comumente ouvido pelo colunista desde a segunda-feira.

É uma racionalização grosseira, mas óbvia a quem pensa um pouco nas dificuldades que enfrenta o caminhoneiro aposentado, de hábitos simples como a maioria dos moradores do bairro da periferia de Gravataí.

Sim, porque comprovada a versão da entrevista, o vereador não tem nada a ver com a droga. Mas, para se livrar de um indiciamento por associação ao tráfico, terá que apresentar documento de locação, ou servir de testemunha para apontar quem usava o imóvel.

No jargão policial, vai ter que ‘dar alguém’. No papel, ou em depoimento. E esse alguém provavelmente tem alguma espécie de envolvimento com o crime. Necessário lembrar que não estamos falando de petequeiros de uma biqueira qualquer no fundo de uma vila, mas de uma facção que com a operação de segunda amargou um prejuízo de mais de R$ 1 milhão com a apreensão da droga, dois caminhões, dois carros e uma moto clonados.

Coloque-se no lugar de Mário, leitor. Ele disse nunca ter desconfiado de nada, apesar do delegado Rafael Sobreiro, que comanda a investigação aberta pela 2ª DP de Gravataí, após a entrevista coletiva de terça ter feito até um desenho mostrando em um papel que seria possível ver o movimento desde a casa do vereador.

Supondo que alguém já tivesse alertado Mário e ele testemunhasse da janela caminhões entrando e saindo do prédio, sob o sol ou sob a lua, o que poderia ter feito? Uma denúncia? Você faria, arriscando se tornar um alvo? Mais: a ‘apropriação’ de imóveis por traficantes não é incomum em territórios dominados por facções. Só por ser vereador, Mário não teria obrigação de ser herói.

 

Mas há outras complicações – legais e políticas – para o parlamentar.  

Na prestação de contas que apresentou à justiça eleitoral na eleição de 2016, Mário declarou dois carros e uma casa, um patrimônio de R$ 369 mil. Já nas entrevistas que deu após o caso ganhar repercussão estadual, o vereador disse ter outros imóveis e um mercado como inquilinos. Se os bens e aluguéis estão em seu nome, e não no de terceiros, arrisca responder por ter sonegado informações à justiça eleitoral.

No mesmo terreno, que confirmou ser de sua propriedade, o delegado identificou casinhas simples, com moradores – o que o georreferenciamento aéreo feito pela prefeitura para cobrar IPTU corretamente em toda a cidade também pode ser usado para comprovar.

Sobreiro também flagrou ligações clandestinas de luz – que, se relacionados ao vereador, poderiam enquadrá-lo em crime contra economia popular – e um poço artesiano. Se não há outorga para o fornecimento de água, configuraria crime ambiental, o mesmo valendo para os resíduos de couro recolhidos no pavilhão onde estava a maconha.

E tem também uma questão que, além de crime, fere o coração das pessoas: os maus tratos a animais indefesos. Nove galos de rinha – um bastante ferido – foram apreendidos em um anexo ao pavilhão, onde havia uma estrutura chamada de tonel, que serve de ringue. Se rinhas ocorriam ali, alguém pode testemunhar, já que o vereador nega ter conhecimento sobre a prática ocorrer em sua propriedade.

 

Politicamente, Mário já sofre a condenação natural do Grande Tribunal das Redes Sociais. No Facebook, principalmente quando a ocorrência envolve políticos, não há presunção de inocência. O que a eleição garante é a presunção de culpa. Mesmo que seja inocentado, pesará sobre ele a desconfiança tão comum nestes dias inquisitórios em que vivemos.

Mário também enfrenta problemas pela fragilidade de seu mandato, insípido, inodoro e incolor. Quando sua foto apareceu na mídia, muitos nem o conheciam. No site da câmara, há poucas referências a ele. Nas sessões das terças e quintas, praticamente só fala quando chamado para ler um trecho bíblico na abertura das reuniões.

Suplente com 940 votos em 2016, Mário herdou o mandato de um dos vereadores eleitos pelo partido, Áureo Tedesco, que após vencer a eleição suplementar em março de 2017 renunciou para assumir como vice-prefeito de Marco Alba (MDB).

No dia em que o nome de Mário apareceu como proprietário do prédio onde a mais de meia tonelada de droga foi achada, seu partido, o PSDB, divulgou nota apoiando as investigações, sem nenhuma pena de proteção ao filiado de alta plumagem.

– O vereador parece não valer nem dois pilas para o partido – foi a interpretação de um experiente político da cidade, em whatsapp enviado ao colunista após ler a postagem do texto assinado pelo presidente tucano Francisco Pinho.

Simone Lourenci, a suplente que assume em caso de impedimento de Mário, curtiu a postagem no Facebook do Seguinte:.

Como são raros os casos céleres como o de Lula, investigado pela polícia federal, denunciado pelo ministério público, e julgado e condenado em tempo recorde pelo juiz Sérgio Moro e o TRF4, Mário Peres terá ainda por um longo tempo o seu nome ligado ao escândalo.

Nesta quinta, o vereador enviou nota alegando ter sido mal-interpretado ao dizer que teria sido excluído das apurações pelo delegado Rafael Sobreiro, que já confirmou que vai intimá-lo a depor.

– Estou inteiramente à disposição da justiça e pretendo colaborar com toda e qualquer investigação. Também tenho o maior interesse na apuração dos fatos – escreve.

Ao fim, mesmo que aparente um comportamento ingênuo politicamente, com as repercussões do episódio principalmente nas redes sociais o vereador já deve ter percebido que na vida pública vale aquela máxima: “à mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer honesta”.

Na câmara de vereadores, nada deve ser feito por enquanto. Pelo menos se valer para Mário o mesmo que o CC flagrado recebendo propina. Uma CPI foi arquivada por falta de assinaturas, sob a justificativa geral de que antes da apuração policial não seria adequada uma investigação legislativa.

Mas o que talvez poucos se deem conta em meio à sanha condenatória é que, mais do que um vereador com o mandato ameaçado, há um ser humano chamado Mário Peres.

Que a vida dele não corra risco.

 

Siga o vídeo que o Seguinte, site parceiro do Diário, preparou, com imagens também do Repórter Ninja, que mostram a operação da segunda à noite, a pesagem da droga e a entrevista coletiva do delegado na tarde desta terça

 

 
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