Terça-feira, 11 de DEZEMBRO de 2018

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20 de novembro

Anastácia com os netos em uma imagem dos anos 1950 | ARQUIVO

Os quilombolas viamonenses guardiões do Rio Gravataí

por Eduardo Torres | Publicada em 20/11/2018 às 18h28| Atualizada em 22/11/2018 às 11h06

Os escravos que fugiam, na então Capitania de Pernambuco, buscavam refúgio e resistência em Palmares. O 20 de novembro celebra a memória do maior líder desta luta contra a opressão: Zumbi, e hoje marca o Dia da Consciência Negra. Pois, em Viamão no Vale do Gravataí, a resistência quilombola vai além do resgate e luta pela sobrevivência da cultura ancestral negra. Em tempos de corrida pela água, os descendentes da “vó” Anastácia e de Manuel Barbosa são verdadeiros guardiões do Rio Gravataí.

Para celebrar a data, integrantes do movimento negro de Gravataí embarcam, na tarde desta terça, em uma viagem pelo rio que tem a sua história enraizada na luta dos antigos cativos.

Parte dos escravos das grandes propriedades na região do Morro Grande, entre a atual Viamão e o Litoral Norte, fugia em direção à mata fechada daquela região, mas estes ainda ficavam ao alcance dos feitores. Os mais resistentes, embrenhavam-se por caminhos tortuosos até a margem do Rio Gravataí. E o rio lhes dava a guarita necessária.

— A véia Hortência e o marido tinham um pedaço de terra, não eram mais escravos, e quem fugia sabia que ali estaria seguro. A minha bisavó botava o pessoal em caíques e atravessava eles pelo Rio Gravataí, para o lado de Gravataí, onde tinha outro pedaço de terra do Manuel Barbosa, também liberto, para proteger os negros. E quem fugia do lado de lá, passava para cá. A gente ouvia as histórias que a vó contava de vezes que a Hortência, mesmo sendo liberta, também foi para o tronco porque deu abrigo aos escravos que seriam mortos — conta a atual liderança da Associação Quilombo Anastácia, Berenice Gomes de Deus, 59 anos.

 

: O Rio Gravataí salvou escravos que fugiam. Agora, são os quilombolas que protegem o manancial

 

Ela é neta de Anastácia, filha de Hortência, aquela que se tornou matriarca da família herdeira da terra dos escravos libertos. Morreu em 1983, segundo os documentos, aos 87 anos, mas ninguém sabia ao certo a idade daquela mulher forte que, até o final da vida, cuidou da terra e do rio, que sempre foi vizinho deles, como sendo a sua casa.

O quilombo, reconhecido em 2016 pelo INCRA e ainda em vias de concretização plena, fica em Viamão, separada de Gravataí justamente pelo Rio Gravataí, à margem de uma grande reserva de água no curso do rio, no início da região de banhados das nascentes do Gravataí. Guardam uma relação ancestral íntima com os também herdeiros do quilombo Manuel Barbosa, na região do Barro Vermelho, em Gravataí. Pela documentação de 2016, o Quilombo Anastácia compreende uma área de 64,1 hectares para 16 famílias beneficiadas, mas hoje, a área ocupada é bem inferior, e, sem a infra-estrutura básica, apenas sete famílias resistem.

 

Esta permanência virou motivo de mobilização pelo movimento ambientalista local. É que, na chamada Lagoa da Anastácia está o limite de um conflito pelo uso da água: entre o abastecimento público e a retirada de água para as lavouras do arroz. Se a disputa por áreas de terra se vê pelas cercas dos latifúndios avançando sobre o território quilombola, por água, as bombas fazem a vez das cercas.

 

Grilagem de água

 

O mais recente episódio do que tende a agravar nos próximos meses exigiu intereferência do INCRA. Produtores catarinenses, que há alguns anos arrendaram um grande pedaço de terras na região, lançaram no Sistema de Outorgas (o cadastro para liberação de uso da água do Rio Gravataí) uma captação supostamente na sua área. Na verdade, era no ponto do rio que costeia do quilombo, portanto, uma invasão da área dos herdeiros de Anastácia como forma de burlar os limites para retirada de água do rio.

— O rio é o que dá água para os nossos bichos, que está sempre na frente das nossas casas e, quando enche, é por ele que atravessamos para buscar o que for preciso para a nossa terra. O rio é que conta a história do nosso povo, por isso precisamos preservar e lutar por ele. Muitas pessoas deram as suas vidas por essa terra. É isso que procuramos passar para os mais jovens. O rio faz parte da nossa herança — valoriza Berenice.

A chamada Lagoa da Anastácia remonta à década de 1950. Era uma época em que o plantio de arroz se expandia na área do Banhado Grande e, para garantir mais água à produção, foi construída uma barragem naquele trecho do rio. Parte das terras da Anastácia ficou submersa. A matriarca foi ignorada pelas autoridades.

A década seguinte, aconteceu o maior crime contra o Rio Gravataí. Foi quando o DNOS iniciou as obras do canal que destruiu a maior parte do banhado e acabou drenando parte da represa na área da Anastácia e seus descendentes.

Do atual quilombo, os descendentes da Anastácia viram a transformação e o esgotamento do Rio Gravataí.

— No tempo de criança, saía de casa às 10h e às 11h já estava prparando o peixinho que pegou no rio. Hoje, anda 10 horas pelo rio para voltar com um lambari. O veneno das lavouras está matando os peixes e tudo o que tem no Gravataí — relata a Berenice.

 

Libertos da Guerra do Paraguai

 

No levantamento concluído em 2006, pela pesquisadora da UFRGS, Vera Regina Rodrigues da Silva, e que serviu de base para o reconhecimento do quilombo, é demonstrado que Hortência já havia recebido a terra dos seus pais. Não se sabe como aquela área, denominada em antigos mapas como Rincão do Cativo, se tornou o refúgio da família de escravos libertos.

 

: A casa simples da "vó" Anastácia guardava a memória da comunidade e acabou ruindo | ARQUIVO

 

É possível que tenha origem semelhante a de Manuel Barbosa, que teria lutado na Guerra do Paraguai e, ao voltar ao Brasil, assentou-se, também liberto, naquele pedaço de terra. Ele teria sido um dos três negros que havia voltado da guerra e se estabelecido nesta área próxima ao banhado.

A principal lembrança da matriarca Anastácia, que poderia ser um símbolo do quilombo, porém, desabou sem que se conseguisse uma definição sobre a sua preservação histórica. Era a casa onde ela e os pais já haviam vivido. A intenção da associação é recuperar a casa e torná-la patrimônio cultural do povo negro no Vale do Gravataí.

Afinal, assim como Zumbi deixou raízes na mata, Hortência, Anastácia e Manuel Barbosa certamente lançaram suas esperanças no Rio Gravataí.

Tainá Rios

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