Segunda, 30 de MARÇO de 2020

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coluna do gustavo

A criança feia

Publicada em 27/02/2020 às 11h24| Atualizada em 27/02/2020 às 11h25

Minha vida é muito fácil e dois são os motivos para ser tão simples e tranquilo o meu viver. Em primeiro lugar, atribuo aos meus pais minha educação, tanto pela de casa, quanto pela caríssima de escolas, faculdade e demais instituições privadas. O outro motivo é a cidade onde moro, ou sendo mais especifico, o sistema econômico adotado pelo país onde esta se encontra. Meu enorme privilégio por ter recebido instruções da minha família contribuiu de maneira que ainda não sei mensurar para formação de meu caráter e personalidade, possibilitando eu me posicionar no mercado de trabalho, ser útil para a sociedade e, por conta disso, ganhar dinheiro para resolver 90% dos problemas existentes do convívio social. E os outros dez por cento? Prometo, um dia, falar mais sobre.

Voltando à minha maravilhosa cidade, nela há um lugar capaz de resolver grande parte destes problemas que mencionei - desde que tenhamos dinheiro para gastar - chamado supermercado. Você já deve ter ouvido falar. Minha geladeira, minha dispensa e meu apartamento precisavam ser reabastecidos. Um problema grave, facilmente resolvido com uma ida ao referido estabelecimento. Fui. Como é bom estar vivo nesta época. O trânsito infernal, os buracos no asfalto, os alagamentos e a falta de sinalização por causa da chuva não foram capazes de tirar meu orgulho. Fruto da boa formação, detenho conhecimento para aceitar a civilização não como algo pronto, mas em constante evolução. Igual às ruas.

Nem o mau-humor dos apressadinhos ladrões de vagas de estacionamento, ou o dos convictos da vantagem adquirida por passar na frente para pegar um produto na prateleira, pôde abalar o auto-controle que meus pais me ensinaram a ter enquanto me incentivavam a enfrentar situações estressantes durante minha infância e adolescência, como falar em público e participar de competições esportivas. Com toda minha leveza de espírito, empurrei para dentro do carrinho o necessário para uma vida muito confortável, até encontrar uma menina. Uma criança perdida.

Devia ter uns três ou quatro anos, mas também não duvido que tivesse seis ou sete. Nunca fui bom em adivinhar idades. Olhei para ela, sorri e perguntei onde estavam seus pais. Esboçou um sorriso encabulado e colocou a mão na boca. Falei que estava tudo bem, perguntei se queria ajuda para achar sua mãe e recebi como resposta um balançar positivo de cabeça e a mão estendida buscando a minha. Quando ela agarrou minha mão com a dela cheia de baba, pude perceber o quão bonita era, com olhos grandes e o cabelo ondulado na altura das bochechas. Mas havia algo estranho naquela expressão. Não identifiquei a tradicional inocência infantil e sim um semblante carregado, como se ela soubesse de algum segredo que não podia compartilhar e que carregava com dificuldade e esforço superior ao que conseguia empregar.

Minha dúvida foi sanada um instante depois, quando entrou no corredor uma mulher balançando a cabeça de um lado para o outro procurando alguma coisa. Julguei ser uma senhora muito velha, em virtude do seu andar arrastado e rugas tão profundas que deixavam transparecer toda sua antipatia e escondiam qualquer sinal de bondade. Me surpreendi quando chamou a menina de filha com a voz arranhada, pois não havia identificado nenhuma semelhança nas duas, até que ao pegar a mão babada e puxá-la para chamar sua atenção disse que se ela fugisse de novo iria apanhar. Enquanto dizia isso, esticou a outra mão próxima ao rosto da criança, ameaçando uma palmada ou, até mesmo, um tapa. Neste momento, presenciei uma enorme mudança na expressão da menina, agora demonstrando pavor, suas feições se transformaram e assumiram todas as linhas da sua mãe, tornando as duas quase idênticas. Durante aquele instante, em que ela ficou feia com o medo, a reconheci como filha daquela senhora.

Nunca apanhei durante a infância e já ouvi muitos conhecidos comentando, geralmente quando estamos desfrutando de bons momentos em família, que não sabem com quem me pareço mais, se com minha mãe ou meu pai. Tenho muita sorte mesmo por ter nascido onde nasci. Ao contrário da de muitos que moram e frequentam os mesmos lugares que eu, minha vida é muito fácil.

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Cristiano Abreu

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