Quarta-feira, 08 de ABRIL de 2020

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Opinião

Coluna do Gustavo: Diário de confinamento - Gabriela e seus maridos

Publicada em 26/03/2020 às 00h

Pela primeira vez em quatro anos, Gabriela pôde voltar para cama após tomar o café da manhã. Professora de lindas e amadas crianças de sete ou oito anos, estava impossibilitada de trabalhar em função da escola estar fechada por causa da quarentena. Depois de acordar de madrugada para medir a temperatura de seu filho de três anos que estava com uma tosse, não conseguiu mais dormir pensando se ela ainda teria emprego quando tudo acabasse. Pensou também em seu pai enquanto lembrava as infindáveis notícias do dia anterior sobre o número de mortos em outros países.

Afastou esses pensamentos e por volta das nove horas levantou da cama e se juntou ao filho mais velho e ao marido para o café da manhã. Acordados desde as sete e meia, os dois já haviam preparado toda refeição, lavado a louça e jogado uma partida no videogame. Acompanharam Gabriela junto à mesa mais para se gabarem de ter preparado deliciosas crepiocas de banana e canela do que por educação. Ela perguntou se não deveriam estar trabalhando remotamente ou fazendo o dever de casa, mas o sistema do trabalho havia caído e a lição seria feita no horário de aula, ou seja, à tarde.

Descansada, almoçou com calma e desfrutou de conversas sobre os mais variados assuntos com seus três homens. Do marido, ouviu o relato de uma briga no supermercado por causa da quantidade de álcool gel que um cliente queria comprar. Com o filho adolescente, discutiram as atitudes de seu colega que fora dispensado pela namorada e agora dizia que a ex tinha despertado um monstro e que todas as próximas seriam tratadas apenas como objetos. Com o filho mais novo combinou que à tarde brincariam de embaralhar todas as meias dele para depois juntarem o pé certo de cada par, como um jogo da memória.

Ao final de tarde, uma leve dor de cabeça interrompeu a série que estava assistindo. Na verdade Gabriela estava incomodada com alguma coisa. Somente após botar o lixo para fora e ler, na porta de entrada de seu condomínio, um bilhete deixado por dois moradores se disponibilizando a fazer as compras para os vizinhos idosos, que ela entendeu o motivo do seu incômodo. Durante o jantar, explicou para seus companheiros.

- Tem gente que tem um coração partido e usa isso como desculpa para agir de forma terrível. O coronavírus está tirando das pessoas alguns privilégios e elas estão se transformando em animais. Mas a culpa não é de quem parte o coração ou do vírus, porque se alguém age como um monstro é porque já era um monstro e só achou uma desculpa para revelar.

Terminaram de conversar e ela pôde dormir tranquila enquanto avançava nos capítulos de um livro que finalmente havia encontrado tempo para ler, sabendo que os homens da vida dela, neste momento de desconforto, revelaram quem eram de verdade e, ao invés de agir de forma irracional, pensaram nas necessidades dos demais e em como poderiam ajudá-los, tudo isso com o simples gesto de informar que poderiam fazer as compras para eles.

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