Quinta-feira, 04 de JUNHO de 2020

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A insensatez marchou no Centro

Parem Viamão que eu quero descer!; declaro-me Inimigo do Povo, amigo da vida

por Rafael Martinelli | Colaboração: Cristiano Abreu | Edição de imagens: Guilherme Klamt | Publicada em 30/03/2020 às 00h| Atualizada em 13/04/2020 às 23h32

"Um Inimigo do Povo" trata sobre as contradições humanas e a falência do indivíduo frente à unanimidade.

Testemunhei a obra-prima de Henrik Ibsen acontecendo em Gravataí e Cachoeirinha ao assistir, confinado pela pior pandemia dos últimos 100 anos, ao lamentável buzinaço e marcha da insensatez pela reabertura do comércio e indústria. Eis que ela se repete em Viamão.

A apoteose foi a inimaginável cena de quase 50 pessoas aglomeradas no centro da cidade, na tarde desta segunda-feira (30).

O enredo do livro se passa numa pequena cidade balneário da Noruega. Um pacato médico denuncia a poluição das águas causada por um curtume. Ganha o apoio de todos. Após estudos técnicos, sugere o fechamento da empresa contaminadora, o que faliria a economia local. É assim que o Dr. Thomas Stockmann, passa de mocinho a vilão, ou seja, torna-se o inimigo do povo.

Não sei se Russinho será o inimigo do povo. Se será responsável o suficiente para seguir os protocolos sanitários que recomendam o isolamento social e não embarcar, ao menos imediatamente, no populista e perigoso #VoltaBrasil.

Fato é que aquilo que o prefeito já decidiu – e ainda vai decidir – sobre o futuro dos mais de 252 mil habitantes de Viamão carregará por toda a História (com agá maiúsculo) sua assinatura. É a mais alta responsabilidade que uma pessoa pode ter, reconheçamos, no balanço entre ‘cancelamentos’ de CPFs e CNPJs.

Hoje, ao fim do cerco e do falatório que emularam saliva nas ruas do Centro afora, entre o clima de festa, e um e outro tapinha nas costas, e celulares bastante digitados no ícone da câmeras, os organizadores do ato comemoravam sua peripécia em live no Facebook. Não estavam nem aí para o fato de terem desrespeitado decisão liminar que impedia a realização de tal ato. Talvez nem mesmo conheçam o fato de que a partir de agora podem ser enquadrados criminalmente sob a alegação de terem ferido o artigo 268 do Código Penal: "Infringir determinação do poder público, destinada a impedir introdução ou propagação de doença contagiosa", que tem pena previsa de detenção variando de um mês a um ano, e multa.

Novo normal: no Grande Tribunal das Redes Sociais, milícias digitais, desinformados e informados do mal já metralhavam teclados anunciando que o comércio reabriria a partir de hoje. Sim, os mesmos da rede social que “há sete dias clamavam pelo fecha tudo e hoje abre tudo”.

Fico com a percepção de que o prefeito pareceu não se incomodar com o que acontecia há poucas quadras de seu gabinete. Ele, durante a manhã de ontem, já havia sofrido as pressões dos representantes das entidades comerciais e industriais da cidade pela volta das vendas. Pelo pouco que se sabe, pois o gabinete ignora sucessivamente os pedidos de informação da Imprensa, novo prazo não deu aos representantes dos patrões, além dos decretos que paralisam as aulas até dia 10 de abril e mantém portas do comércio cerradas por tempo indeterminado.

Ao contrário de tantos messias, eu não queria ser Russinho neste momento. ‘Inimigo do povo’, serei, se esse for o preço de informar. É minha responsabilidade como jornalista, perdendo ou ganhando leitores; e quem me acompanha sabe que não sou ‘caça-cliques’.

Começo pelo dia.

Entendo que a presença de manifestantes na praça, com vereadores e tudo é um erro e tanto. É um exemplo questionável para a comunidade ordeira que está em isolamento social. Age como "napoleão de hospício" quem faz da crise do corona uma disputa política. Não dá para tratar a covid-19 como ‘gripezinha ou resfriadinho’. "Não era um ato partidário", disseram muitos pelas redes antes da carreata. Mas o que se viu e ouviu foram gritos de "mito", de "morte aos vagabundos do sindicato", ou de "desligue a Globo e vá trabalhar", entre camisas verdes e amarelas estampando o rosto do presidente. Ficou a nítida impressão de que se Bolsonaro disser para baterem as cabeças na parede, baterão.

A Prefeitura de Viamão é maior que essa loucura; Russinho agora tem que provar que também é.

Justas manifestações, de quem não sabe como sobreviver ou manter negócios poderiam ter sido feitas pelas redes sociais da Prefeitura ou do prefeito. Porém, respeitando a estratégia de isolamento social que deu certo no mundo, e parece dar certo por aqui também, com dois casos confirmados, 18 em análise (quatro a mais em 24h), apesar da certeza da subnotificação, já que não são feitos exames para além de pacientes hospitalizados e em estado grave.

Mas a pressão sobre Russinho não vem só do pelotão de verde amarelo que cruzou Viamão quebrando a quarentena, e, observe nos vídeos que circulam por aí, quase todos pobres ou no máximo remediados.

Nem Jipe Renegade vi.

No Facebook, ululam postagens de gente ‘famosa’ de Viamão, No WhatsApp, grupos foram criados e  alguns integrantes compartilham incessantemente mensagens minimizando a pandemia, espalhando fakes como a história do atestado de óbito falso do borracheiro que não morreu de covid, mas que foi contabilizado como se fosse para derrubar o presidente, e colocando a questão econômica acima da sanitária – parte deles a ‘Política Acima de Tudo’.

Oportunistas ou ‘chico bentos’ da mídia local, deixo os prints construírem seus legados.

Prefiro seguir a ciência.

– Nós estamos imaginando que nós vamos trabalhar com números ascendentes, espirais em abril, maio, junho. Nós vamos passar aí 60 a 90 dias de muito estresse para que quando chegarmos ao fim de junho, julho, a gente imagina que entra no platô. Agosto, setembro a gente deve estar voltando, desde que a gente construa a chamada imunidade de mais de 50% das pessoas – alertou o médico Luiz Henrique Mandetta, dia 20, antes de, dias depois, se travestir no ex-deputado federal agarrado ao cargo de Ministro da Saúde e avalista do terraplanismo sanitário como seu chefe.

Poucos lerão, mas insisto – não sem lembrar que a quarentena não é para sempre, e o mundo precisa girar, porém não no ápice do contágio! Arredondo, para melhor ilustrar, associando-me ao economista Eduardo Moreira, cujas lives diárias recomendo como fonte primária.

Temos no mundo 693 mil casos e 33 mil mortes registradas. Angela Merkel, chanceler da Alemanha, país com a melhor estrutura para enfrentar o coronavírus, disse há dois dias que “estamos no início da pandemia”.

Conforme a Science, ao lado da Nature uma das revistas acadêmicas mais prestigiadas do mundo, seis a cada 10 terráqueos podem ter contraído covid-19 ao fim da pandemia deste ano; 86% dos portadores não terão sintomas relevantes, mas serão responsáveis por 79% das transmissões; dos infectados, 15% poderão precisar de tratamento e 5% de internação em uma unidade de tratamento intensivo.

São dois bilhões de pessoas confinadas, um a cada três terráqueos. Com 10% de letalidade, a Itália ainda não atingiu o pico, e hoje, após ‘pequena’ queda de ‘100 mortes’ por dia, registrou 812 em 24 horas. São 11,5 mil mortos. Soldados também estão morrendo nessa guerra: 30 médicos só na Itália. Já são cinco mil profissionais de saúde contaminados.

Num cálculo comparando as populações italianas e brasileira é como se tivéssemos 350 mil mortes no Brasil. Para efeitos de comparação, restamos chocados com 50 mil mortos por homicídio a cada ano.

Os Estados Unidos registram 2 mil mortes por dia e uma curva exponencial. Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), já é o novo epicentro da infecção por covid-19, com 125 mil casos. Preocupante é que somos um país parecido com os EUA, em hábitos, desigualdades e fake news governamentais.

Relatório da Abin, a agência de inteligência do governo brasileiro, alertou dia 23 que, em um cenário catastrófico, com índices de Itália, poderemos chegar a 5.571 mortes ao fim de abril. Em estimativa mais otimista, com percentuais franceses, 2.062. Com mais de 200 mil casos.

Conforme o documento, em duas semanas o Brasil não terá mais leitos de UTI disponíveis. Em Gravataí, antes da crise do coronavírus, só escapávamos do 100% de ocupação por 0,3%.

Conforme a Abin, em abril 10.385 leitos – ou 17,4% dos quase 60 mil disponíveis no país – poderão estar ocupados por doentes com casos graves de covid-19.

A análise, diz a agência, é imprecisa, porque “o Ministério da Saúde divulga os dados dos casos confirmados e dos óbitos por covid-19, o que não permite fazer projeções mais precisas sobre o crescimento dos casos no país”.

Registre-se que o anúncio dos 10 milhões de testes comprados pelo governo federal ainda não saiu do Twitter para a entrega palpável nos estados e, consequentemente, municípios. Gravataí não recebeu nenhum teste novo. A ideia é comprar por meio de doações ao Comitê de Solidariedade ao Enfrentamento do Coronavírus, instalado segunda.

Se dois a cada 10 leitos precisariam ser ocupados por paciente da covid-19 na média do Brasil continental, em Santa Catarina, onde aconteceram ontem e hoje as mais fervorosas manifestações pelo #VoltaBrasil, o índice chegaria a 40%. Como lá a ocupação dos leitos de UTI é de 95%, o colapso no sistema é questão de dias, horas.

Acredito que o relatório da Abin tenha embasado os apelos de empresários, como o ‘novo rico’ do Madero, o Véio da Havan, ou o playboy tardio Roberto Justus, a calcular ‘só’ 5 mil mortes.

Grito eu: mas, e as mortes ‘rotineiras’?!?

Sim, porque com UTIs ocupadas, para onde vai o bebê com asma, a criança atropelada, o adolescente baleado, a mãe com câncer, o pai infartado ou os avós com insuficiência respiratória?

É a Escolha de Sofia dos médicos da Itália: quem respira, quem não; quem vive ou quem morre. O meme provoca: quem da sua família pode morrer para salvar a economia?

Chorei ao assistir reportagem de TV italiana em que médicos transmitem por lives no Facebook as últimas palavras de moribundos para seus entes queridos, que não podem chegar perto, somente das cinzas após a cremação. Crianças numa ‘bolha’ de UTI, com as mães ao longe, incomunicáveis.

Não vou me repetir pela enésima vez, acesse o Diário de Viamão clicando aqui e leia nossa cobertura monotemática sobre a crise do coronavírus, em artigos como Viamão tem segundo caso confirmado de covid-19Prefeito decreta estado de calamidade pública em ViamãoO cavalo de Tróia que atravanca o gabinete do Russinho na pior crise da saúde da história de Viamão, O cavalo de Tróia que atravanca o gabinete do Russinho na pior crise da saúde da história de Viamão e Brasil registra 4.579 casos confirmados de coronavírus e 159 mortes da doença.

Não importa se a cloroquina ajudou no tratamento do Nelson Sirotsky, o problema é não poder tratar todos os doentes ao mesmo tempo. Pobres principalmente, mas também os ricos: 80% é a taxa de ocupação das UTIs privadas.

No pior cenário, se a doença seguisse uma lógica linear, no pico, daqui a três meses, teríamos perto de mil casos confirmados entre Viamão, Cachoeirinha e Gravataí.

Detalhe: em Viamão apenas se estabiliza o paciente, ou, para leigos, a pessoa infectada é mantida respirando, até encaminhá-la aos hospitais referenciados pelo Ministério da Saúde para tratar covid-19, que são o Clínicas e a Santa Casa, em Porto Alegre, e o Nossa Senhora das Graças, em Canoas.

O Rio Grande do Sul dispõe de 12,8 mil leitos clínicos públicos e privados. Em UTIs são 1,6 mil e outros 200 foram abertos após a crise do coronavírus.

No pior cenário possível, no auge da infecção no país, até 40% da população pode ser contagiada pelo coronavírus, destes oito a cada 10 sem sintomas, ou com leves sinais. Em uma projeção da população local, seriam 110 mil pessoas em Viamão, 112,6 mil em Gravataí e outras 52,1 mil em Cachoeirinha.

O problema é que a média mundial demonstra que, se as práticas mais rigorosas de controle do contágio não forem tomadas, 15% dos infectados precisarão de internação. Significaria uma demanda impossível de cobrir pela rede hospitalar local ou de qualquer país, com 16,8 mil em Viamão 16,8 mil pacientes em Gravataí e 7,8 mil em Cachoeirinha.

Seria uma catástrofe italiana, nas três cidades onde quase duas a cada 10 pessoas são idosos e grupo de risco, já que em até 5% dos infectados, as complicações respiratórias determinam internação em unidades de tratamento intensivo, com respiradores. Aí, o quadro piora. Seriam inimagináveis 8,2 mil leitos.

Preste atenção.

97% dos leitos do SUS já estavam ocupados antes da covid-19. Dos privados, dos planos de saúde mais caros, 8 em cada 10.

A Nova Zelândia, que não registra mortes, foi o país mais rápido impor quarentena severa. Será o primeiro a sair da crise. Na Itália, que liberou geral há um mês, com campanha como a nossa #VoltaBrasil, hoje condena a cinco anos de prisão que for pego na rua e testar positivo.

Enquanto o governo chamava turistas, a Itália registrava 17 mortes por coronavírus. Desde então, o país mudou drasticamente a política para endurecer o isolamento e tentar estancar milhares de mortes que colapsam o sistema de saúde.

Nesta segunda o Brasil registrava 159 mortes. Quando Bolsonaro apareceu em TV e rádio para todo país demonstrando pensar mais em 2022 do que nos enterros sem velório destes dias, ao debochar da “gripezinha ou resfriadinho” e culpar prefeitos e governadores pelo ‘contágio econômico’ da crise do coronavírus, eram 59.

A taxa de transmissão de uma gripe comum é de 21%, enquanto a taxa de transmissão do coronavírus é de 80%. Coronavírus não é Influenza, Covid-19 não é H1N1.

São os fatos, aqueles chatos que atrapalham argumentos e teorias conspiratórias.

“Erramos”, admitiu semana passada o prefeito Giuseppe Sala, um mês após a campanha #MilãoNãoPara. CINCO MIL QUATROCENTAS E DUAS MORTES estão na conta dele, como gestor.

Como se jogasse num caça-níqueis, Bolsonaro dobra a aposta com vidas. “Morramos juntos”, parece dizer o Jim Jones brazuca. Em Viamão, o relinche parece ter sido ouvido. A pressão sobre o prefeito pela reabertura do comércio e da indústria é tão virulenta quanto a ciência mostra ser o covid-19.

Ao fim, este é o único texto que consegui escrever, de casa, porque estudei bastante, e por sintomático da praga moderna: dores de cabeça e no corpo, um vai e vem de 37 graus, suadores repentinos de escorrer pelas costas, garganta queimando, tosse. Se nem as luvinhas e os assessores para abrir tramela de porta livraram o Príncipe Charles da contaminação, no Reino Unido, por que seria diferente comigo, ou com moradores da Santa Isabel, São Tomé ou da Estalagem?

Ainda não sinto falta de ar, mas se acontecer, vou para o raio-x da Santa Casa e, se com indícios de pneumonia detectada, jogarei a loteria dos leitos. Se você chegar depois, em isolamento social ou não, aguarde na fila do respirador.

Esse herói, Bolsonaro, que espertamente capitalizou o sentimento de quem precisa trabalhar para pagar as contas e/ou os funcionários, é de quem devemos cobrar pela inação de duas semanas.

Enquanto o mundo (os EUA, o Trump também!) coloca raidamente dinheiro nas mãos das pessoas para girar a economia, o ‘mito’ anuncia alta burrocracia para liberar 600 reais para os pobres, enquanto garante aos bancos lucros futuros nunca antes alcançados. Só para ficar em um exemplo: a redução do cheque especial para 2% ao mês, cujo cálculo é de juro sobre juro a cada 30 dias, nos fará a República Federativa do Brasil Endividado.

Torço para que aqueles que contestam fatos e argumentos que trago estejam certos. Jamais torceria por cenários catastróficos ou mortes, que definissem meus algozes como cúmplices de homicídio. Se rezar fosse uma rotina minha, o faria para ser tomado logo ali pelo ‘Louco de Viamão’.

 Infelizmente, acho que os loucos são vocês.

 

O Diário de Viamão fez vídeo com com imagens do Facebook da "Rádio Metropolitana Web"

 

 

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